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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Setembro chegou! (V)

Abrigam-se os lagartos
em frestas
de segredos

no escuro das adegas
rescende
o vinho novo

retomam as ribeiras
um destino
sem escolhas.

A «teia» nos teares
abraça-se nos linhos

enfeita o corpo a terra
com um sendal de folhas

Soledade Martinho Costa in Festas e tradições portuguesas: Setembro e Outubro
[Lisboa]: círculo de Leitores, imp. 2003

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Setembro chegou! (IV)

PEQUENA ELEGIA DE SETEMBRO

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Setembro chegou! (III)

MANHÃS DE SETEMBRO

Manhãs de Setembro,
aragem fresca
construindo sonhos,
teias de gotas
enfeitando os matos,
perfume verde
a seguir meus passos,
lírios roxos
ponteando as margens
do fio de água
que escorre manso.
E tu E eu!
E a erva tombada
pelos corpos,
os lírios violados
na paixão.
E o céu!
Esse céu azul
sem limite.
O nosso limite.
A nossa eternidade!

De Helena Guimarães
In: Manhãs de Setembro
(retirado de: http://www.helenaguimaraes.interdinamica.pt/central/hg/x12y.htm)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Setembro chegou! (II)


SETEMBRO

É de Setembro a fria madrugada
Em que o teu corpo habita. É cinzenta
A crispar-se, de nervosa, a ante-alvorada
Em que te moves, ave friorenta.

É de Setembro a ânsia de raízes
De teus dedos buscando um rio escuro.
Em Setembro, secos os matizes
Da paisagem, só resta anseio puro.

É de Setembro, terra seca e cores claras
- o amarelo que receia os verdes
Explodidos nos longes das anharas –
É o espírito-brisa em que te perdes.

É de Setembro o olhar onde lucilam
Com as estrelas, pontas de fogueiras.
E a abóboda azul onde desfilam
As, do teu sonho, aves prisioneiras.

M. António in Obra poética
Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Setembro chegou! (I)


SETEMBRO

agora o outono chega, nos seus plácidos
meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa
um cabaz de maçãs por sobre a vedação:
redondas, verdes, o seu perfume vai
dentro de quinze dias ser mais forte.

a noite cai mais cedo e apetece
guardar certos vermelhos da folhagem
e amarelos e castanhos nas ladeiras
de setembro. a rádio fala no tempo variável
que vem aí dentro de dias. talvez caia

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo
os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.
aproveita-se o outono no macio
enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.
devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele.

Vasco Graça Moura,
in "Poesia 2001/2005", Quetzal Editores, 2006