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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Dia da Criança

Aguarela de John Trentham
Recordações da infância

Saudades! Tenho saudades                                              
Desses tempos que lá vão!
Quando à porta do quinteiro
Eu jogava o meu pião:
Quando no campo corria
Cum papagaio na mão.

Oh, que então eram, na terra,
Tudo venturas pra mim!
Meu pai me dava biscoitos,
Minha mãe beijos sem fim;
Minha avó me defumava
De manhã, com alecrim.

Por entre os prados amenos
Como, contente, eu saltei
Com meu chapéu de dois bicos
Que dum papel arranjei,
E em grosso pau a cavalo,
Mais orgulhoso que um rei!

De ser cristão, nessa idade,
Tendo já nobre altivez,
De papelão com a mitra
Que a mano António me fez,
Ao pé da minha igrejinha
Bispo fui por uma vez.

Nos inocentes folguedos
Eu via o tempo voar;
Se um via vinha um sopapo
Que me obrigava a chorar,
Depois, de mimos coberto,
Eis-me a rir, eis-me a brincar.

Meu pião idolatrado,
Que será feito de ti?
Papagaio da minha`alma,
Há que tempo te não vi!
Doces biscoitos de outrora,
Quem mos dera agora aqui!

Meigos beijos, inocentes,
Como ainda me lembrais!
Cheirosos defumadores,
Que saudades me inspirais!
Meu lindo chapéu de bicos,
Não me enfeitarás jamais.

Grosso pau em que montava,
Em cinzas, talvez, será,
 A mitra, com que fui bispo,
Esfarrapada foi já.
E a minha bela igrejinha
Em que mãos estará!

De infância a negra saudade
Que à desgraça me reduz,
A minh´alma espevitando
Tem quase apagada a luz:
Só vivo até que meu peito,
Às escuras, diga: truz!

Faustino Xavier de Novais in 
Tesouros da Poesia Portuguesa
Lisboa: Verbo, 1994

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A leitura desde o berço

Muitos estudos defendem que é saudável que a criança contacte com a leitura desde tenra idade. Para além da leitura ter um impacto positivo e crucial no desenvolvimento cognitivo da criança ela tem também impacto na sua própria personalidade. Em geral as crianças que têm contacto com o livro regularmente são crianças mais criativas, mais imaginativas, mais confiantes e com maior capacidade de reflexão e de argumentação.

A leitura não é apenas divertida, engraçada, emocionante, empolgante e prática, para a criança ela é uma das chaves de acesso ao mundo dos adultos.

Durante as últimas duas décadas um pouco por todo o mundo, e sobretudo através das bibliotecas públicas têm surgido diversos programas para a promoção da leitura. Infelizmente o enraizamento deste hábito ainda não tem o alcance pretendido, embora muito caminho já se tenha percorrido no sentido de formar bons leitores.

Os jovens hoje em dia, em geral, lêem pouco. Despendem muito tempo frente ao computador ou frente à televisão, desde muito cedo têm contacto com as novas tecnologias, que têm sobre eles um efeito fascinante. Se a leitura não for estimulada desde tenra idade, dificilmente o futuro jovem adquirirá o hábito de ler. Qualquer hábito precisa de ser incentivado. A leitura não é um dom que nasce connosco, portanto quanto mais cedo se começar a promover o contacto com o livro e a leitura, mais serão as hipóteses de criar um verdadeiro leitor.

Para desenvolver este hábito é muito importante o envolvimento da família e a criação de condições propícias ao desenvolvimento deste hábito no lar. Existem vários passos que os pais podem dar para ajudar a preparar os seus filhos a tornarem-se leitores, a par com as actividades desenvolvidas nas escolas e nas bibliotecas. Estes incluem:

- Proporcionar aos filhos uma dieta rica em experiências linguísticas ao longo do dia: falar com as crianças, contar histórias, cantar canções, recitar poemas e lengalengas e descrever o mundo que os rodeia. Dar nomes as coisas e estabelecer conexões. Encorajar a criança a conversar.

- Estabelecer o ritual de ler cerca de 30 minutos por dia em voz alta para as crianças, começando desde o berço.

- Visitar regularmente a biblioteca e deixar a criança manusear e escolher os livros da sua preferência. Participar nas actividades de promoção da leitura oferecidas pela Biblioteca.

- Acompanhar o percurso escolar da criança. É importante o diálogo com o professor para saber em que nível se encontra e qual a melhor maneira de a acompanhar em casa para o bom desenvolvimento das suas capacidades.

- Limitar o tempo de visionamento de televisão. Procurar programas adequados à idade da criança.

- Fazer da leitura um ritual. Enquanto a criança lê ou ouve uma história a televisão e/ou a rádio devem ser desligados.

- Os pais são o principal modelo para as crianças: demonstre o seu gosto pela leitura. Crianças que vêem os pais a ler, que percebem que eles têm prazer ao fazê-lo, são crianças mais interessadas na leitura do que aquelas que têm pais que não lêem e não gostam de ler.

- Demonstrar a importância da leitura na realização das tarefas do dia-a-dia. Exemplo: ver o horário dos transportes públicos, seguir uma receita de culinária, fazer compras no supermercado, são tarefas que requerem o saber ler para serem concretizadas.

- Aconselhar-se com os profissionais da biblioteca e com os professores sobre as leituras mais adequadas à faixa etária do seu filho.

- Oferecer livros aos seus filhos em datas festivas. A existência de livros no lar é fundamental para a familiarização com o livro e a leitura.

- Envolver os avós na educação dos seus filhos. Peça-lhes para lhes contarem histórias e cantar canções da sua geração.

A técnica da leitura, é uma técnica que se começa a desenvolver desde o nascimento, portanto quanto mais cedo iniciar o contacto da criança com o livro e a leitura, maiores serão as hipóteses de obter sucesso.

Miriella de Vocht
8 de Novembro de 2009

Bibliografia consultada:

http://www.ed.gov/pubs/startearly/ch_1.html%20acedido%20em%2007.11.2009 acedido em 07.11.2009
http://www.peuterplace.nl/peuter/voorlezen.htm acedido em 07.11.2009

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Nascer a ler

Decorreu no passado dia 21 de Março a primeira sessão da actividade que a Biblioteca Municipal Miguel Torga vai desenvolver com bebes dos 0 aos 3 anos. A consciência da importância de que se reveste a criação de hábitos de leitura, desde a mais tenra idade levou-nos a pôr de pé um projecto que está a ser muito bem aceite pelos pais e que conta com a ajuda preciosa das Educadoras da Casa da Criança de Arganil.

“Nascer a Ler” é pois um projecto em que acreditamos, por vários motivos, entre os quais a possibilidade de os pais serem apoiados e aconselhados nas escolhas de livros para os seus bebes, o contacto com variados livros de literatura infantil e a prática da leitura em voz alta fundamental para que a leitura se torne um prazer para quem ouve, neste caso para que os bebes ouçam com atenção as palavras bem ditas, com uma boa dicção, num ambiente propício ao intimismo, condição necessária para que o projecto funcione.
Na sala da hora do conto da Biblioteca Miguel Torga brinquedos misturam-se com livros, os livros têm palavras e imagens coloridas que atraem a atenção dos bebes e os levam a “folhear” as suas páginas.

Com os pais, as conversas sobre leituras para eles e para os seus bebes, vão preenchendo o espaço deste fim de tarde que queremos relaxante e agradável.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A propósito do Dia Internacional do Livro Infantil



Inês Sim-Sim no artigo “Sabe-se hoje o que é preciso fazer para formar bons leitores” publicado na revista Palavras nº 26 (Outono, 2004) refere-se à fonologia como uma prática essencial utilizada pelos professores, principalmente do pré-escolar e do primeiro ciclo, para desenvolver nos alunos a prática e o gosto pela leitura. A linguagem realiza-se através de palavras, sendo que a adaptação da oralidade à escrita é muito complexa e tem a ver com o código escrito, mas também com a capacidade de articular sons.

Por isso é tão importante a leitura de histórias às crianças desde a mais tenra idade. A leitura de uma história tem como objectivo transmitir sons que se transformam em palavras e em significados, mas também transmitir imagens mentais que a criança vai construindo à medida que ouve a história. Para que este objectivo se concretize é fundamental escolher com muito cuidado as histórias, tendo em conta que as palavras que as constituem devem ser ricas de conteúdo e harmoniosas e as frases devem ser bem construídas com as palavras mais adequadas.

Quando lemos um texto de Sophia de Mello Breyner Andresen às crianças mais pequenas, possivelmente elas não entendem os significados de todas as palavras, mas se a história for bem lida, o som das palavras é suficiente para lhes prender a atenção, para as fascinar.

Os sons, que se transformam em palavras, entram dentro da criança e ficam à espera do momento propício para germinarem. A criança que já ouviu muitas palavras e associou essas palavras a significados, quando precisar de exprimir uma ideia tem as palavras dentro de si, que nessa altura fazem o caminho contrário. A criança, no seu percurso de vida, vai utilizar essas palavras que ficaram gravadas na memória e utiliza-as para exprimir as imagens que a sua imaginação criou, ou os conhecimentos entretanto adquiridos.

Recorro a outro artigo de Inês Sim-Sim: “De que falamos quando falamos de leitura”, (1994), para continuar o meu raciocínio. A autora fala dos métodos do ensino da leitura nas escolas e sobre a leitura em si como processo de descodificação de símbolos e como apreensão de significados, relacionados com múltiplas variáveis, dentro e fora do contexto escolar:

“A leitura é uma tarefa difícil que as crianças desenvolvem com dificuldade. Os métodos de aprendizagem são fundamentais para que a criança aprenda com eficácia a mecânica da leitura e um desafio muito sério para o professor, que necessita adaptar estratégias adequadas ao desenvolvimento intelectual dos seus alunos. “

Seguindo o pensamento de Inês Sim-Sim, concluo que o ensino da leitura não pode ser ministrado mecanicamente. Ler é “um processo interactivo entre o sujeito leitor e o material escrito” (Sim-Sim:1994), este processo é complexo e é muito mais que o simples descodificar de signos, já que as palavras têm uma dimensão intelectual que ultrapassa os processos mecanicistas da aprendizagem.

A escola tem grande responsabilidade na aprendizagem da leitura, todavia ela é apenas uma parte do processo. Há factores sociais, económicos, culturais, que condicionam a aprendizagem, bem como as dificuldades de interpretação / compreensão do discurso narrativo ou do texto informativo. Esta realidade leva-me a reflectir sobre as causas que conduzem a esta dicotomia de desempenho que me parece ter também a ver com a vivência das crianças fora do contexto escolar. Uma vivência mais rica, contacto com palavras e ideias mais elaboradas na família ou no meio em que vive, contribuirão para o enriquecimento de representações mentais que se reflectirão no entendimento do texto.

A passagem da oralidade à palavra escrita, a criação do alfabeto, a adaptação dos sons aos caracteres alfabéticos leva à facilidade com que a maioria das crianças aprende a escrever e a ler. É um processo que decorre do percurso da humanidade, mas é também um fenómeno social fruto de uma civilização que cria dentro de si a necessidade de comunicar e de conservar memórias, passando da palavra à escrita, do sentido da palavra ao grafismo que a representa.

A escrita, como mecânica de articulação de signos que reproduzem sons, é a verdadeira revolução da história da humanidade, porque permitiu um desenvolvimento a nível intelectual determinante para o progresso das ideias e consequente afirmação do homem.

É, pois, esta ligação entre sons, escrita e sentidos ou significados que está na base de toda a problemática da leitura. Quando lemos, fazemo-lo porque conhecemos o código e dominamos o mecanismo da leitura atribuindo aos diversos sons a sua correspondência gráfica. Todavia saber ler e dominar o mecanismo da leitura não é suficiente para atingir a plenitude da leitura. Esta é atingida quando se transpõe a compreensão das ideias expressas no texto e se tocam os sentidos.
2 de Abril de 2009

Margarida Custódio Fróis

sexta-feira, 13 de março de 2009

DA PALAVRA À LEITURA

Quando um bebé nasce, não sabe falar; não conhece palavras e o cérebro ainda não está preparado para esta função.
O desenvolvimento neurológico do cérebro vai permitir articular as primeiras palavras formadas por sons muito simples, de poucas sílabas.
A partir daí as crianças “normais” sem problemas fisiológicos que de algum modo impeçam o normal desenvolvimento da fala, vão desenvolver a sua capacidade vocal.
Estudos recentes de conceituados especialistas no campo da neurofisiologia vêm alertando para a grande preocupação que os pais devem ter em ajudar os seus filhos a desenvolver as potencialidades intrínsecas ao ser humano, de articulação das palavras.
A criança não nasce ensinada, pelo contrário, aprende com tudo o que a rodeia. Aprende o bem e o mal; o positivo e o negativo. As palavras que começa a pronunciar são as palavras que ouve de alguém que lhe está próximo. Daí ser fundamental que a criança ouça palavras bem ditas, bem articuladas, em que os sons produzidos estão absolutamente correctos. A qualidade e a riqueza das palavras ouvidas vão contribuir para um desenvolvimento intelectual harmonioso da criança.
Sabemos que as grandes etapas da Humanidade se desenvolvem a partir do momento em que o homem começa a articular palavras e posteriormente quando consegue passar essa oralidade à escrita. Ao longo dos séculos o ser humano foi-se transformando fisiologicamente e culturalmente. Foi um longo caminho que nos conduziu onde estamos hoje.
A criança herda todo este percurso de contínua evolução da Humanidade, que se vai transmitindo e alterando de geração em geração e que as coloca num patamar de grande desenvolvimento intelectual, proporcionando as condições para que o caminho, percorrido durante milhares de séculos, continue.
É uma realidade que se traduz em vantagens, mas simultaneamente em desafios para as crianças do nosso tempo. Herdeiras de um código genético muito desenvolvido, elas enfrentam uma realidade muito exigente, necessitando de desenvolver competências intelectuais que permitam a sua integração no mundo de hoje.
Este trabalho e esta responsabilidade é da Família e da Escola, que deve criar as condições para que a criança cresça intelectualmente, desenvolvendo todas as capacidades que o percurso da Humanidade lhe oferece.
Daí a importância das palavras. Sabemos hoje que as palavras e a aprendizagem da leitura e da escrita são o melhor exercício para o desenvolvimento intelectual da criança. As ligações neurofisiológicas que se vão construindo no cérebro infantil e que lhe permite adquirir a agilidade de pensamento e de raciocínio, que o mundo de hoje exige, estão muito dependentes destas aprendizagens.
Vivemos na era da informação, mas para que esta se transforme em conhecimento não é só necessário tê-la ao alcance de um clique. É fundamental saber interpretá-la, interiorizá-la e transformá-la em nova informação, ou seja, em conhecimento.
Margarida Custódio Fróis