terça-feira, 19 de junho de 2012

Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância atribuído a Ondjaki


Ondjaki, nome pelo qual é conhecido em todo o mundo o escritor angolano Ndalu de Almeida foi distinguido com o Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância 2012. O prémio distingue a obra infanto-juvenil A bicicleta que tinha bigodes pela “qualidade da história narrada, feita de recordações e vivências que podem facilmente prender a imaginação do leitor e transportá-lo para realidades diferentes da sua”. O júri destaca ainda “a riqueza do discurso que preserva marcas oralizantes e identitárias e permite aos leitores reconhecer a diversidade de registos na língua portuguesa”.

Onjaki nasceu em Luanda, em 1977. É licenciado em Sociologia e interessa-se pela representação teatral e pela pintura. Publicou o seu primeiro livro, Actu sanguíneu (poesia) em 2000.

A sua obra encontra-se traduzida para diversas línguas, entre elas francês, inglês, alemão, italiano, espanhol e chinês.

Em 2007 foi laureado com o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco pelo seu livro Os da Minha Rua, em 2008 recebeu o prémio Grinzane (Etiópia) por melhor escritor Africano e em 2010 ganhou o Prémio Jabuti (Brasil), na categoria Juvenil com o romance Avó Dezanove e o Segredo do Soviético .

O seu livro mais recente é A bicicleta que tinha bigodes publicado pela Caminho em 2011, agora premiado.
 
Excerto de A bicicleta que tinha bigodes
 
“Na minha rua vive o tio Rui, que é escritor e inventa estórias e poemas que até chegam a outros países muito internacionais.
O CamaradaMudo, um senhor gordo que fala pouco e está sempre sentado na esquina da nossa rua, disse que essas estórias já foram transformadas em peças de teatro num país com nome comprido, parece que se diz "Julgoeslávia".
Quando ouvi a notícia na rádio, que iam dar uma bicicleta bem bonita, amarela, vermelha e preta, lembrei-me logo de falar com o tio Rui. Era um concurso nacional com primeiro prémio de uma bicicleta colorida que já apareceu na televisão, mas nesse dia na nossa rua não havia luz.
De noite, a falar com a minha almofada, eu até já prometi bem as coisas: “se eu ganhar a bicicleta colorida, vou deixar todos da minha rua andarem sem pedir nada, nem gelados nem xuínga.”
Essa promessa assim bem dura de fazer é que me fazia acreditar que eu ia mesmo ganhar a bicicleta.
Mas eu não tenho jeito nenhum para essa coisa das estórias. Falei com outros miúdos, para saber quem tinha ideias, quem queria participar no concurso nacional da bicicleta colorida, mas todos me gozam a dizer que essa bicicleta já deve ter dono, que já sabem quem é que vai ganhar.
Não entendi aquilo, mas não desisti. Fui ainda falar com o CamaradaMudo.
– É verdade que essa bicicleta que estão a anunciar na rádio não é de verdade?
– Claro que é de verdade – o CamaradaMudo respondeu. – Tu tens uma boa estória?
– Eu só tenho uma boa vontade de ganhar essa bicicleta.
– Mas para ganhares tens de inventar uma estória.
– Tou masé a pensar que devíamos pedir patrocínio no tio Rui, aquele que escreve bué de poemas.
– Isso não é batota?
– Batota porquê?
– E as outras crianças?
– Quero lá saber, não tenho culpa que o tio Rui vive aqui na minha rua. Eles que descubram também o escritor da rua deles.”
 
Obras do escritor disponíveis na rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil
 
• Quantas madrugadas tem a noite. Lisboa : Caminho, 2010.
• A enfermeira de bata negra. Porto : Campo das Letras, 2003. ISBN 972-610-730-X
• Ynari : a menina das cinco tranças. Lisboa : Caminho, 2004. ISBN 972-21-1636-3
• O assobiador ; Há prendisajens com o xão. Lisboa : Caminho, 2009.
• E se amanhã o medo : contos. Lisboa : Caminho, 2005. ISBN 972-21-1708-4
• O voo do golfinho. 1ª ed. Lisboa : Texto, 2011. ISBN 978-111-11-2861-6
• Os olhos grandes da princesa pequenina. 1ª ed. Lisboa : Texto, 2011. ISBN 978-111-11-2859-3
• O leão e o coelho saltitão. [Lisboa] : Caminho, imp. 2008. ISBN 978-972-21-2011-1
• Os da minha rua. Lisboa, 2007. ISBN 978-972-21-1863-7
• Momentos de aqui. Lisboa, 2007. ISBN 978-972-21-1407-3

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Philip Roth, vencedor do Prémio Princípe das Astúrias das Letras, 2012


«[A obra narrativa de Philip Roth] faz parte da grande novelística norte-americana, na tradição de Dos Passos, Scott Fitzgerald, Hemingway, Faulkner, Bellow ou Malamud. Personagens, factos e argumentos compõem uma complexa visão da realidade contemporânea que se debate entre a razão e os sentimentos, como o signo dos tempos e o desassossego do presente. Possui uma qualidade literária que se reflecte numa escrita fluida e incisiva.» foi a justificação do júri para a atribuição do prémio ao romancista judeu norte-americano.


Philip Roth nasceu em Newark, Nova Jersey, em 1933, e estudou nas universidades de Rutgers, Bucknell e Chicago. É um dos escritores vivos mais importantes dos Estados Unidos, e um dos mais galardoados. Entre as suas obras mais conhecidas encontra-se a colecção de contos Goodbye, Columbus, de 1959, a novela O complexo de Portnoy (1969), e a sua trilogia americana, publicada na década de 1990, composta pelas novelas Pastoral Americana (1997), Casei com um comunista (1998) e A Mancha humana (2000).

Livros do autor disponíveis na rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil:

 

A mancha humana. [S.l.] : (Sic) idea y creación, 2008. 279 p.

A conspiração contra a América. [S.l.] : (Sic) idea y creación, 2009. 377, [1] p.

Traições. Venda Nova : Bertrand, imp. 1991. 176 p. ISBN 972-25-0558-0


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Novidade na Biblioteca: Nó cego de Tomaz de Figueiredo

Nó cego de Tomaz de Figueiredo
Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2002

Publicado pela primeira vez em 1950, serve de cenário a Nó Cego a buliçosa Coimbra dos anos 20 – a Coimbra da geração da presença, onde o autor estudou. Nesta obra está presente a capacidade romanceadora e o domínio da linguagem de Tomaz de Figueiredo, bem como a sua capacidade de apresentar várias variações para um mesmo tema. Nó cego, apesar de publicado 3 anos depois de A Toca do Lobo, é o primeiro romance do autor

“Neste romance conhecemos por dentro uma típica família burguesa, respeitável a olhos estranhos, mas que asfixia alguns dos seus membros, os menos astutos ou mais idealistas, como o pai e o filho, João Bravo, o protagonista. O qual, inadaptado à vida, a atravessa como um deserto. O pai, Adriano, é um ser amarfanhado, debatendo-se entre as aflições de dinheiro e a humilhação de depender de um cunhado de posses, Beto, que por isso, de tudo põe e dispõe. Não é ele que financia os estudos do sobrinho, primeiro no colégio e depois na universidade? A irmã, mulher de Adriano e mãe de João Bravo, é a quinta-essência da burguesa, muito ritualmente devota, mais atenta à palavra que ao espírito, toda puritana e com preconceitos de casta, e dogmática e sentenciosa com o mano Bento. Domina o marido, que não é ouvido e achado em nada, e de tanto querer proteger o filho, sempre debaixo da sua asa, o não deixa respirar nem ser ele mesmo. Assim, entre mãe e filho não se estabelece uma saudável relação afectiva, e é com o pai que ele se entende, numa cumplicidade sem palavras.

Eis as personagens, eis o quadro de uma família radiografada na sua intimidade. Sem irmãos, João não pode brincar com outros meninos, porque isso lhe é defeso pela mãe, por não serem da sua condição. Não lhe é permitido conviver na cozinha com as criadas, que acarinham o seu menino, porque de lá o expulsa a sua mãe, zelosa em preservar o estatuto do filho: cada qual no lugar que lhe compete. Refugia-se o menino no seu mundo, o sótão e o quintal, entregue ao seu sonho e à sua solidão. (…)

Contrariando essa tradição de toda uma literatura coimbrã que, mesmo que não se esgote na pitoresca evocação da boémia estudantil, e vá mais longe e mais fundo ao retratar uma juventude que procura e se procura, nas encruzilhadas da cultura da arte e do amor, Nó cego desce a um poço de agonias, poço tão cavado que sufoca qualquer grito. O drama de João Bravo é o de, no seu autismo, não soltar sequer um grito e recusar mãos que talvez se estendessem para o ajudar.”

Excerto da Introdução de João Bigotte Chorão

Mais informação sobre a obra:

Ferreira, António Manuel - Naufragar é preciso: os laços de nós cego

Leia, porque ler é um prazer!


sexta-feira, 8 de junho de 2012

O adeus a Ray Bradbury

Ray Bradbury, premiado com a Medalha da Fundação Nacional do Livro, 2000 (EUA) pela contribuição às letras norte-americanas e com a Medalha Nacional de Artes 2004 (EUA), morreu a 5 de junho de 2012, aos 91 anos, vítima de doença prolongada. Ao longo de uma carreira de mais de setenta anos, Ray Bradbury tem inspirado gerações de leitores a sonhar, pensar e criar. Um autor prolífico de centenas de contos e cerca de 50 livros, assim como de numerosos poemas, ensaios, óperas, peças de teatro e roteiros, Bradbury foi um dos escritores mais célebres do nosso tempo e é considerado um dos fundadores da literatura fantástica contemporânea. Os seus trabalhos pioneiros incluem Fahrenheit 451, Crónicas marcianas, O Homem Ilustrado, entre outros. Fahrenheit 451 foi adaptado ao cinema por Truffaut, fazendo dele um filme de culto.

OPINIÕES

“O mundo literário ficou mais pobre com a morte de Ray Bradbury mas não há qualquer dúvida que o seu trabalho inspirou toda uma geração de artistas, que hoje levam o seu legado mais longe do que o próprio escritor alguma vez imaginou.”

Francisco Guerra (retirado do site: http://www.tecnologia.com.pt/ )

“O talento criativo e fantasioso de Bradbury permitiu à ficção científica ganhar dignidade como estilo literário, mas o escritor também quis desconstruir essa ideia. «Não sou um escritor de ficção científica. Só escrevi um livro de ficção científica, o Farhrenheit 451. Todos os outros eram fantasia. As fantasias são coisas que não podem acontecer, a ficção científica é sobre coisas que podem acontecer», repetiu várias vezes ao longo da sua vida.”


LIVROS DO AUTOR DISPONÍVEIS NA REDE DE BIBLIOTECAS DO CONCELHO DE ARGANIL:

Fahrenheit 451. Porto : Público Comunicação Social, imp. 2003.
A árvore sagrada. Lisboa : Livros do Brasil, cop. 1972.
Crónicas marcianas. Lisboa : Caminho, imp. 1985.
A morte é um acto solitário. Lisboa : Dom Quixote, 1987.
A cidade fantástica. Lisboa : Caminho, imp. 1986.

PÁGINA OFICIAL DO AUTOR: http://www.raybradbury.com/

POST ANTERIORES NO BLOG SOBRE FAHRENHEIT 451:


Novidade na biblioteca: Pântano de João Gaspar Simões

“A linha mestra de Pântano assim se define na pessoa de Juvenal, (…)filho ligado em remorso à mãe perdida em menino e em ódio ao pai recasado, vindo aos 29 anos a Lisboa, sem saber porquê, em falta total de projecto ou ambição – homem sem qualidades de vida, no seu quotidiano de trabalho, ou de vontade dele, mesmo com o seu inútil canudo de licenciado em Direito. (…)Juvenal não sentia gosto nem necessidade de trabalhar e via-se como «um triste ruminador cerebral» a quem «a inteligência dava para se negar, para se complicar, para se dissolver por dentro», e, ainda por cima, «um homem inábil para o amor», a quem «mulher alguma podia pertencer» - «condenado a ser só para toda a vida»…”
Excerto do prefácio de José-Augusto frança

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vitorino Nemésio: autor versátil e multifacetado

Vitorino Nemésio nasceu a 19 de Dezembro de 1901 na Ilha Terceira Açores e faleceu a 20 de Fevereiro de 1978 em Lisboa.

O gosto pela expressão verbal surgiu muito cedo em Vitorino Nemésio. Enquanto aluno do 4º ano do liceu dirigiu um semanário intitulado Estrela D’Alva, rotulado de «revista literária, ilustrada e noticiosa». A sua estreia no campo das letras deu-se em 1916 com a publicação do livro de versos Canto Matinal. As suas primeiras obras são ainda imaturas, porém em 1924, já radicado em Coimbra, sob a chancela da Imprensa da Universidade de Coimbra, Vitorino Nemésio publica o volume Paço do Milhafre, com prefácio de Afonso Lopes Vieira, onde nitidamente se evidencia o seu inegável talento de grande prosador e de grande ficcionista.

Em Coimbra matriculou-se na Faculdade de Direito, passou pelo curso de História e de Geografia da Faculdade de Letras, mas foi em Filologia românica que se licenciou. Curso que terminou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1931, com elevadas classificações, tendo sido logo convidado para leccionar Literatura Italiana como professor auxiliar.

Nemésio casou a 12 de Fevereiro de 1926 com D. Gabriela Monjardino de Azevedo Gomes, também açoriana, que veio a ser além de excepcional companheira, uma admirável colaboradora da sua obra de investigador.

Doutorou-se em 1934 com a dissertação A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio.

Em 1935 Vitorino Nemésio parte para Montpellier onde dá aulas de Português e se inicia nos grandes poetas franceses contemporâneos. Mais tarde lecciona na Universidade de Bruxelas e em 1940 passa a ser professor catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, pronunciando ali a sua última lição em 1971.

Na década de 20 e 30 publicou entre outras as seguintes obras: Varanda de Pilatos (1927); Sob os signos de Agora (1932); Relações Francesas do Romantismo Português (1936); Isabel de Aragão, Rainha Santa (1936); A casa fechada (1937). Na década de 30 fundou e dirigiu a Revista de Portugal.

“Poderá dizer-se, pois, que, ao terminarem os anos Trinta, plenamente quedava firmada a fasciculada profundidade do talento de Vitorino Nemésio como poeta, ficcionista, ensaísta, crítico e erudito”. Doravante, a sua «biografia» será essencialmente a história dos seus livros, a história da sua docência universitária, a história das suas múltiplas intervenções a variadíssimos níveis (…) na vida cultural do País e na projecção dessa mesma vida cultural em países estrangeiros.”
David Mourão-Ferreira in O essencial sobre Vitorino Nemésio

Como docente universitário, estagiou em França, na Bélgica, no Brasil, em Espanha, na Holanda, sendo distinguido com o grau de Doutor Honoris Causa pelas Universidades de Montpellier e de Ceará. De 1938, data da publicação de O Bicho Harmonioso, a 1976, data de Sapateia Açoriana, desenvolveu uma intensa actividade poética, “revelando-se independente de escolas e doutrinas e feixe de novas encruzilhas a apontar outros caminhos”.

No panorama do romance português, Mau tempo no Canal (1944) ocupa um lugar de relevo como romance-tragédia que retrata os conflitos de uma sociedade patriarcal do primeiro quartel do século, integrada na asfixiante realidade insular.

Recebeu em 1966 o Prémio Nacional de Literatura e, em 1974, o prémio Internacional Montaigne. Em 1963, tornou-se sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa e a partir de 1969 foi também colaborador do programa Se bem me lembro da RTP.

Bibliografia consultada:
- Ferreira, David Mourão - O essencial sobre Vitorino Nemésio. – [Lisboa]: INCM, 1987
- Garcia, José Martins – Vitorino Nemésio: a obra e o homem. – Lisboa: Arcádia, 1978
- Dicionário Cronológico de Autores Portugueses. Mem Martins : Publicações Europa América, 1998. 
Consulte o catálogo da rede de bibliotecas de Arganil em http://www.bibliotecas.cm-arganil.pt/ e veja quais as obras do autor que temos disponíveis.
Nota: Para fazer a pesquisa por autor deve-se inverter o nome, isto é: Nemésio, Vitorino
Descubra a obra dos escritores portugueses!
Leia, porque ler é um prazer!
Para consultar na internet:
Exposição comemorativa do centenário do nascimento de Vitorino Nemésio (1901-1978) - http://purl.pt/161/1/

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Dia Mundial da Criança

Autor: Pam Fox
A flor

Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se lhe papel e lápis.
A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

José de Almada-Negreiros
in Tesouros da Poesia Portuguesa

Livro do mês: diálogos para o fim do mundo

Diálogos para o fim do mundo de Joana Bértholo
Alfragide : Caminho, cop. 2010.

Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho 2009, da Câmara Municipal de Loures

“Este é um romance que atrai desde logo a nossa curiosidade em virtude da opção da autora por um formato narrativo que é dos mais difíceis dentro da tradição modernista. Refiro-me à organização da narrativa pelo cruzamento de diferentes estórias de vidas pessoais e familiares, bem como aos saltos no tempo por que a narrativa vai alargando o próprio espaço de representação e, ao mesmo tempo, estimulando a imaginação do leitor. Começando (…) no Uzebequistão e numa família (a família Kozak) cujas dificuldades obrigam o pai a emigrar para o Brasil, a narração vai nuclearizando essa saga de modo a torná-la numa espécie de guia para os mais diversos cruzamentos com a história da Europa, designadamente as suas guerras, e com episódios tão conhecidos e emblemáticos como o naufrágio do Titanic. Estas camadas de atenção aliam-se a outras de reflexão directa ou indirecta acerca do carácter predador do ser humano e à cegueira que o conduz a acções destruidoras do equilíbrio com a natureza.

A formatação do romance é de índole marcadamente experimentalista, isto é, a autora vai experimentando várias patamares de construção nos quais cabem ou se misturam, por exemplo, repetições deliberadas de determinadas passagens ou afirmações, bem como ironias acerca da própria narrativa – como os comentários no início dos capítulos ou a inscrição de um índice antes do romance acabar. Sugere-se assim uma espécie de afirmação da memória do próprio conteúdo narrado, revelando-se, por outro lado, aliás, um controlo muito forte da narrativa por parte da autora.”

Manuel Frias Martins
Fonte: http://www.unscratchable.info/files/manuel-frias-martins.pdf

“Sem veleidades de grandiloquência ou presumida discursividade filosófica, sem alardear uma retórica pedante, esta escrita tem o condão de ser autêntica, o que muito resulta da sua originalidade. Imaginativo, aqui e ali algo obscuro, sempre desconcertante (como a isso já aludimos), este romance não será um tsunami, mas no mínimo um fulgurante meteorito será. Romance in-progress, a si mesmo se desenhando e mostrando-se ao leitor nesse processo, mecanicamente jogado entre o lúdico e o racionalizado, «Diálogos Para o Fim do Mundo» escapa a géneros ou fórmulas pré-existentes. E só por isso merece ampla leitura e reconhecimento.”

Pedro Teixeira Neves
Fonte: http://www.pnetliteratura.pt/critica.asp?id=1898

A autora:

Escritora e investigadora, nasceu em Lisboa em 1982, onde estudou Artes e se licenciou em Design de Comunicação. Fez Erasmus na Bélgica, estagiou e fez projectos de voluntariado pelo mundo, e foi turista em vários destinos.

Mais informação em: http://www.unscratchable.info/