sábado, 1 de agosto de 2015

As cidades invisíveis


São 55 as cidades em 11 grupos, entre elas: As Cidades e a Memória: em encantamento e armadilha; As Cidades e o Desejo: em que quase nos perdemos nos caminhos gerados; As Cidades Contínuas onde Calvino reune os casos extremos das megalópoles, questões ambientais, e ordenamento do território.

Encontramos redes de passagem em cidades suspensas; figuras que se sucedem como numa partitura musical; olhares que se trocam desenhando setas e estrelas; uma cidade de palácios de filigrana e um pavão branco que é também uma cidade de fuligem e gordura; a cidade triste que desconhece o seu reverso feliz; o equívoco do lugar que o céu e o inferno ocupam e o que os compõe.

Italo Calvino nasceu em Santiago de Las Vegas, Cuba em 1923. Filho de um engenheiro agrónomo, cedo foi viver para San Remo onde passou parte da sua infância. Segue em Turim os mesmos estudos do pai, mas a guerra vem interromper a sua carreira académica. Em 1944 filiou-se no Partido Comunista Italiano.

Publica o seu primeiro livro em 1947 “A Trilha dos Ninhos de Aranha” em que retrata a sua experiência na guerra enquanto parte da resistência contra o fascismo.
No final da guerra retoma os seus estudos na universidade de Turim, onde seguiu estudos literários e se licenciou com uma tese sobre Joseph Conrad.
Foi apresentado e conviveu com grandes intelectuais de esquerda do seu tempo. Logo que se formou, passou a trabalhar no jornal comunista L’Unità e na editora Einaudi. 

Foi na década de 1950 que publicou os livros que o tornariam famoso internacionalmente. O primeiro deles, de 1952, foi O Visconde Partido ao Meio, que seria acompanhado pelo clássico O Barão nas Árvores, de 1957, e O Cavaleiro Inexistente, de 1959. A partir daí, o trabalho de Italo Calvino ganharia muita repercussão e ele publicaria outros importantes textos nas décadas seguintes, com destaque para O Castelo dos Destinos Cruzados, de 1969, As Cidades Invisíveis, de 1972, e Palomar, de 1983.

A sua obra foi reconhecida tendo recebido vários prémios em universidades importantes do mundo. Quando preparava uma coleção de textos literários que iria ser apresentada na Universidade de Havard, sentiu-se mal tendo sido internado no hospital de Santa Maria della Scala, em Siena. Morreu a 19 de setembro de 1985 vítima de uma hemorragia cerebral.

Italo Calvino deixou um imenso legado para a Literatura mundial. Nas Bibliotecas do Concelho de Arganil, para além de “As Cidades Invisíveis” poderá ainda requisitar os seguintes títulos:

- A nuvem de Smog e a formiga argentina. Lisboa : Teorema, D.L. 2001
- A vida difícil. Lisboa : Arcadia, imp. 1962
- Cavaleiro Inesistente. Lisboa : estórias, 1986
- O atalho dos ninhos de aranha. Lisboa : Dom Quixote, 1992
- O barão trepador. Lisboa : Portugália, [19-?]
- O castelo dos destinos cruzados. Lisboa : Bertrand , 1973
- Os amores difíceis. Lisboa : Arcadia, imp. 1968
- Os idílios difíceis. Lisboa : Arcádia, [imp. 1964]
- Palomar. Lisboa : Teorema, [D.L. 1987]
- Se numa noite de Inverno um viajante. Porto : Bibliotex, S.L, 2002
- Sobre o conto de fadas. Lisboa : Teorema, imp. 1999
- O Visconde cortado ao meio. Lisboa : Teorema, imp. 1986

quinta-feira, 9 de julho de 2015

AGORA E SEMPRE







É verdade que Agora e Sempre de Danielle Steel foi um guilty pleasure
 Não exigir que me demorasse na profundidade de um tempo de dor e perda; enredada que estou num tempo de medo a exigir transfiguração. 
Aqui se apresenta um amor vivido em posse, em desequilíbrio, na aceitação de um deslize sexual. Sequências e consequências, em pesadelo, que testam esse amor mas não o fazem vacilar.  Quando se acumulam dívidas, no revés, logo surge resposta no desafogo dum encontro afortunado. Identidades convenientes.  Na fórmula não falta um episódio em que laço conjugal se desfaz; surge um galã que ameaça o ‘agora e sempre'.  Os caminhos psicológicos percorridos pela Jessie, figura central, e a ambição do marido ao realizar-se, permitem que tudo se componha e que se encontre a união fortalecida que promete o ‘felizes para sempre’.
Uma história onde não existe o afrontamento do impasse.



Danielle Steel nasceu em Nova Iorque em 1949, tendo passado grande parte da sua infância em França. Quando regressou aos Estados Unidos estudou Literatura Francesa e Italiana na Universidade de Nova Iorque.
Escreveu mais de 30 romances, publicados em cerca de 80 países, que venderam mais de 300 milhões de exemplares traduzidos em mais de 50 línguas.

Nas Bibliotecas da Rede do Concelho de Arganil podem os leitores encontrar muitos dos romances escritos por Danielle Steel.

Procure os livros de Danielle Steel no Catálogo on-line da Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil e requisite-os para ler nas suas férias. Aqui fica a lista das opções:

- A honra do silêncio. [Lisboa] : Círculo de Leitores, 2002
- A luz que brilha : a história do meu filho. Lisboa : Bertrand , 2012
- Jewels. Londres : Transworld Publishers, cop. 1992
- Mensagem do Vietname. Lisboa : Temas e Debates, 2001
- O palacete. [Lisboa] : Círculo de Leitores, imp. 2005
- Querido papá. Lisboa : Temas e Debates, 2001
- Uma vez na vida. Lisboa : Bertrand, 2011
- Um longo caminho para casa. Lisboa : Bertrand, 2007
- Bittersweet. London : BCA, 1999
- Irresistible forces. London : BCA, 1999
- Malice. London : Corgi Books, 1997
- Safe Harbour. London : Corgi Books, 2004
- Tempo para amar. Lisboa : Bertrand, 2009
- The wedding. London : BCA, 2000


segunda-feira, 15 de junho de 2015

O velho que lia romances de amor


Antes de surgir em cena o nosso herói que dá título ao livro encontramos Rubicundo Loachim, dentista, que abomina todo e qualquer governo e que esporadicamente se desloca para realizar tratamentos aos habitantes desta isolada aldeia.  É das mãos do dentista que António José Bolivar Proaño recebe os livros, livros esses de muito sofrimento por amor e com final feliz.  A pedido e a gosto do velho António José Bolivar.

Ao chegar, houvera muito tempo a El Idilio, deparara o velho Bolivar Proanõ com fraca terra. Permanece o conhecimento dos xuar.  Com eles aprende o idioma, a mover-se na floresta amazónica, a pescar e a caçar com zarabatanas.  Atingido por uma víbora é socorrido pelos xuar.  Luis Sepúlveda revela o profundo conhecimento que estes têm quanto aos recursos que colhem da floresta, sempre em equilibrio com esta, os ritos, segredos e rituais.  Mas com o tempo chega o momento de partir da irmandade de sangue que forjara. “Ele era como os xuar mas não era um deles.”

Um fio narrativo começa com um xuar que entrega o corpo de um gringo morto pelas garras duma onça que o perseguiu por ele assasinar as suas cinco crias.  As peles estão em posse do gringo  e ao analisar o corpo o velho insiste nesta verdade, em defesa do xuar condenado pelo detestável administrador de alcunha Babosa, sabendo que a onça atacará mais vezes.


Ao se encontrar outro colono rasgado pelas garras da onça o administrador obriga o velho a participar numa expedição de caça.  É sózinho que acaba por se dar o combate com mestria de suspense, entre o velho leitor dos romances que falam de amor com palavras bonitas e que às vezes o fazem esquecer a barbárie humana.

de Luis Sepúlveda
Edições ASA, 2000 (17ª edição)



Do autor:

Luis Sepúlveda nasceu em Ovalle, no Chile, em 1949, e tornou-se conhecido com O Velho que Lia Romances de Amor, romance que continua a fascinar milhões de leitores em todo o mundo. 
Desde 1993 que a Asa vem publicando toda a obra do autor: além deste romance, Mundo do Fim do Mundo, Nome de ToureiroPatagónia Express, História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a VoarEncontro de Amor num País em Guerra e Diário de um Killer Sentimental, livros que conheceram sucessivas reedições e transformaram Luis Sepúlveda num dos escritores latino-americanos mais queridos do leitor português. 

Fonte: badana do livro


Para saber quais os livros de Luís Sepúlveda disponíveis para empréstimo, na Rede de Bibliotecas do Concelho siga a hiperligação e faça pesquisa orientada por autor.


segunda-feira, 30 de março de 2015

LAÇOS DE FAMÍLIA



de Clarice Lispector

ED. RELÓGIO D'ÁGUA

Encontramos neste livro de contos palavras com um centro secreto que se revelam na beleza da escrita que suplanta a desordem.  Tudo o que pela sua própria natureza é separado é também unido.

A segurança de corpos sadios.  O terror e o nojo que se apagam com uma chama.  O testemunho de uma fé suave, crepitante e grata.  Os valores da persistência, da continuidade, da alegria.  O dom de um caminhar que pede tréguas.

Ainda o que Clarice Lispector chama de "cruel necessidade de amar" e "malignidade do nosso desejo de ser feliz".

O que se encontra de amargura e cólera a desaparecer com as partidas.  A perturbação e piedade de uma estranha graça.  O desafio.  A acusação.  Assuntos de dinheiro.


Vidas de adulto e os fios partidos dessas vidas.  Tudo o que se desfaz e tem que se refazer.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Montedemo


 Hélia Correia. ed. Ulmeiro, 1984

Montedemo é um livro rico nas diferentes formas que tomam o que é humano, celestial, tenebroso, telúrico.  Das batalhas do pagão e do sagrado.
Entre as personagens destacam-se Irene: a louca com a sua vitalidade, suas gargalhadas e preces, que socorre os outros e acaba amada pelo povo.
Milena que se revela numa inesperada e alarmante beleza; esplendor tardio de gravidez.  Nasce uma criança escura, parida sem ter nome, raça ou paternidade.

Que equilíbrio se encontrará?


"O povo lhe chamara Montedemo e ainda hoje se conta que lá iam, cobertos pela noite e embuçados, os pares de noivos prestes a casar." pag. 12

"Sem que capela alguma pudesse ser-lhe erguida com imagem, altar, velas e azeite, enguiçadas as obras por isto ou por aquilo, mordidela de víbora, pedregulho rolando como um trovão do céu, telhas, laje, argamassa roubadas do seu sítio de um dia para o outro." pág. 13

Da autora Hélia Correia

Escritora portuguesa contemporânea (1949), licenciou-se em Filologia Românica e é professora de Português do Ensino Secundário. Apesar do seu gosto pela poesia, é como ficcionista que é reconhecida como uma das revelações da novelística portuguesa da geração de 1980, embora os seus contos, novelas ou romances estejam sempre impregnados do discurso poético. 
Recebeu em 2002 o prémio PEN 2001, atribuído a obras de ficção, pela sua obra
 Lillias Fraser.

Para saber quais os livros de Hélia Correia disponíveis para empréstimo, na Rede de Bibliotecas do Concelho siga a hiperligação e faça pesquisa orientada por autor.






quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Novidade na Biblioteca: Os anagramas de Varsóvia de Richard Zimler


Um romance policial arrepiante e soberbamente escrito passado no gueto judaico de Varsóvia. Narrado por um homem que por todas as razões devia estar morto e que pode estar a mentir sobre a sua identidade… No Outono de 1940, os nazis encerraram quatrocentos mil judeus numa pequena área da capital da Polónia, criando uma ilha urbana cortada do mundo exterior. Erik Cohen, um velho psiquiatra, é forçado a mudar-se para um minúsculo apartamento com a sobrinha e o seu adorado sobrinho-neto de nove anos, Adam.

Num dia de frio cortante, Adam desaparece. Na manhã seguinte, o seu corpo é descoberto na vedação de arame farpado que rodeia o gueto. Uma das pernas do rapaz foi cortada e um pequeno pedaço de cordel deixado na sua boca. Por que razão terá o cadáver sido profanado? Erik luta contra a sua raiva avassaladora e o seu desespero jurando descobrir o assassino do sobrinho para vingar a sua morte. Um amigo de infância, Izzy, cuja coragem e sentido de humor impedem Erik de perder a confiança, junta-se-lhe nessa busca perigosa e desesperada. Em breve outro cadáver aparece - desta vez o de uma rapariga, a quem foi cortada uma das mãos. As provas começam a apontar para um traidor judeu que atrai crianças para a morte.

Neste thriller histórico profundamente comovente e sombrio, Erik e Izzy levam o leitor até aos recantos mais proibidos de Varsóvia e aos mais heróicos recantos do coração humano.

Fonte: contra capa do livro


Requisite o livro na Biblioteca Municipal de Arganil


Leia, porque ler é um prazer!

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O mês de Outubro


Amigos de Ler” é um clube de leitores livres e apaixonados pelas suas leituras, que se reúnem mensalmente na Biblioteca Municipal de Arganil.
No passado mês de Outubro falou-se precisamente sobre Outubro e sobre o que esta palavra trás à memória.
A amiga e escritora Drª Leonarda Tavares, apesar de não ter comparecido partilhou o seu testemunho “o mês de Outubro” que foi lido no serão do dia 13 de Outubro e que agora partilhamos no blog.

O Mês de Outubro

Viciados num quotidiano de banalidades passamos pelos dias sem nos apercebermos ou compreendermos o significado de tantas pequenas coisas que são a vida, a nossa caminhada pelo mundo.

O grupo que tem vindo a encontrar-se, regularmente, na biblioteca, decidiu refletir, na próxima tertúlia, sobre outubro.

Aparentemente é apenas o décimo mês do ano no calendário gregoriano, tendo a duração de trinta e um dias. Deve o seu nome à palavra latina octo (oito), dado que era o oitavo mês do calendário romano, que começava em março.

Medimos o tempo. Dividimo-lo em anos, meses, semanas, horas, minutos e segundos. Mas sem muros, nem fronteiras. Passado, presente ou futuro são um rio sempre a correr da nascente até à foz. Água barrenta ou azul a ondular ao vento, chega às entranhas da terra para brotar de novo e ser fonte de energia revitalizadora.

Se escrevermos a palavra outubro numa folha de papel e a olharmos atentamente, ela anima-se de uma vida plena de memórias, de paisagens, de sentimentos, de imagens, de aromas e de sabores.

Devo confessar que este mês, durante vários anos, foi o mais triste do ano.

Terminavam as longas férias do verão e o seu início significava o começo das aulas e a separação da família.

Estudei num colégio interno, como tantos jovens da minha geração e, ainda hoje, sinto a dor, apesar de longínqua, das lágrimas de outubro. Os meus familiares teimavam em escondê-las e eu, ao contrário, derramava-as em abundância.

Sentia revolta, mas não sabia, nessa época, que a minha partida forçada se devia ao exíguo número de escolas, especialmente no interior, consequência da política de um ditador apologista da ignorância do seu povo.

Volvidas várias décadas, o tempo suavizou o passado e o mês apresenta-se lavado e perdoado.

Aprendi a gostar de outubro. O rodopio do verão sabe a sol, a mar e a encontros. Prendo-me mais ao visível. Fico sem tempo para apreciar o interior das pessoas e das coisas.

O cheiro a terra molhada e a mosto, o esvoaçar das folhas e os dias a minguarem, são um convite ao invisível: ao que vem de nós, dos livros, da chama da lareira, do cair da chuva, das noites longas e da esperança de uma nova primavera.

No silêncio ouvimos a alma, deixamos voar a memória e encontramo-nos na autenticidade do que realmente somos.

As flores, as árvores e toda a natureza fatigadas de tantos frutos e de tanta beleza, sem pressa, entregam-se a um merecido descanso.

Partem as andorinhas em busca de um céu mais azul.

Apetece-me um poema de aromas e de sabores perfumado de maçãs, marmelada fresca e frascos coloridos de compota.

Equaciono a minha condição de pessoa com a minha comunhão com os outros e imagino a imensidão de palavras que poderia ter escrito sobre o tema proposto pelo grupo.

Porém, os pensamentos são fugazes. Os que fixo no pedaço de papel são os que navegam parados no momento em que os agarro. Por isso os tornarei a ver.

Dos incontáveis acontecimentos ocorridos ao longo dos muitos outubros, guardo os que a memória me conserva, os que o coração teima em acordar em meu redor.

A escrita é um ato solitário. Gostava de partilhar as surpresas literárias do convívio. Contudo, o rumor citadino leva-me pelas ruas, apressada, sem olhar os olhos de quem passa. Há folhas adormecidas, espalhadas pelo chão, impregnadas de sonhos e de odor a castanhas. É outubro.

Maria Leonarda Tavares

Leia, porque ler é um prazer!

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O cassador de muros de Ana Filomena Amaral


A propósito da apresentação do “Cassador de Muros” de Ana Filomena Amaral devo dizer que é o titulo que primeiro nos chama a atenção para o livro. À primeira vista um erro ortográfico. Impossível, pensamos nós. Esta palavra não pode ter o mesmo significado que a palavra caçador. Procuramos no dicionário etimológico e encontramos a palavra cassa e descobrimos que vem do latim cassare, cujo significado é: destruir, aniquilar, anular.

Muito bem, a partir da raiz da palavra formamos novas palavras, daí cassador, aquele que destrói, aniquila, anula os muros.

Bom, passada esta fase, as coisas começam a fazer sentido. Pois Alberto, o personagem principal deste romance, um jornalista português entediado no dia-a-dia do jornal onde trabalha, em Lisboa, vê-se de um momento para o outro catapultado para realidades, sensações, momentos que ele não julgava poder vir a ter.

Descobrimos na leitura do livro que ele é uma personagem que se desconhecia a si próprio, pois quando desperta para esse novo eu, tudo nele se transforma.

Da pacatez do seu dia-a-dia ele passa a viajante compulsivo de realidade em realidade, onde há sempre um muro que ele gostaria de destruir.

Mas os muros que ele vai encontrando não são apenas muros físicos, são muros de vivências escondidas, de sofrimento, de dor. Muros de ausências e de vidas perdidas atrás dos muros.

Alguns são verdadeiros muros erguidos pelo lado mau que os homens têm, onde se esconde a sua pequenez e a sua cobardia se revela.

A maldade que está subjacente à construção do muro de Berlim, é a mesma que ditou a construção do muro na Palestina, na Irlanda do Norte, ou na Coreia do Norte. São muros que os homens constroem porque não sabem usar a arma que é a PALAVRA, talvez a arma mais poderosa que existe e quando bem usada, a mais eficaz.

Quando a PALAVRA não é usada, surgem outras armas mortífera, destruidoras que apenas deixam sofrimento e morte.

Junto aos muros físicos, Alberto encontra outros muros que ele próprio construiu, porque a vida nos obriga por vezes a construir muros. Muros que nos afastam dos outros e que não temos coragem para aniquilar, para anular. Quando, por vezes, o conseguimos, verificamos que o muro que construímos nos impediu de ver o outro lado e consequentemente de nos libertarmos e sermos, talvez, mais felizes.

No livro que a Ana Filomena Amaral escreveu é precisamente isto que acontece ao herói do romance. Ele é um aniquilador de muros. Em primeiro lugar os que construiu consigo próprio e que vai vencendo nesta viagem, depois os que foram sendo construídos e o afastaram de gente que lhe era querida. Nas viagens que empreende em busca de muros físicos o acaso e felizes encontros vão-lhe permitir destruir alguns dos seus próprios muros.

Outro aspeto que desperta a atenção neste livro é o caminho que a autora tomou e a linha de acontecimentos que se vão sucedendo, passando por cenários pintados de cores escuras: a tristeza, a morte, a dor a saltarem a cada momento em pontos geográficos muito distantes entre si e que parecem globalizar os ditos cenários pelas suas semelhanças em cada diferente situação. 
Mas em simultâneo, outros cenários são construídos. 
À dor opõe-se a alegria do nascimento de novos seres.
À solidão opõe-se a alegria do encontro com antigos e novos amigos.
Ao isolamento familiar opõe-se o surgimento de uma família unida, feliz.
À pobreza opõe-se a opulência dos mais ricos.

A autora leva-nos através de cenários de grande pobreza material e o oposto, e em todos estes caminhos há muros que são derrubados e aniquilados, mas muitos muros subsistem e subsistirão porque os homens são em simultâneo construtores e aniquiladores de muros.

Parabéns à autora por nos levar em viagem a locais críticos do mundo de hoje, onde o sofrimento das pessoas ultrajadas na sua dignidade, deixam envergonhados todos aqueles que se consideram pessoas civilizadas no século XXI.

Margarida Fróis

Leia, porque ler é um prazer!