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segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Novidade na Biblioteca: "Outlander: um eco do passado" de Diana Gabaldon

Alfragide: Casa das Letras, 2019
ISBN: 978-989-660-641-1

«Brianna aproximou a carta do nariz e inalou profundamente. Tanto tempo depois, tinha a certeza de que se tratava de imaginação e não de cheiro, mas ainda sentia o suave aroma de fumo nas folhas. Talvez fosse tanto a lembrança como a imaginação; ela sabia como era o ar numa estalagem, repleto dos aromas da lareira, de carne assada e de tabaco, com um cheiro adocicado de cerveja a arrematar tudo.

Sentiu-se tola ao cheirar as cartas na frente de Roger, mas desenvolvera o hábito de as cheirar em privado, quando as relia sozinha. Tinham aberto esta na noite anterior e leram-na várias vezes juntos, a discuti-la - mas agora retirara-a da caixa outra vez, apenas para a ter nas mãos e ficar sozinha com os seus pais durante um bocadinho.

Talvez o cheiro estivesse realmente ali. Ela percebeu que na verdade uma pessoa não se lembra de cheiros, não da mesma forma que se lembra de algo que viu. Quando se sente um cheiro novamente, sabemos o que é - e em geral ele traz de volta consigo uma série de outras memórias. E ela estava sentada ali num dia de outono, cercada de maçãs maduras e urzais, a poeira de antigos lambris de madeira e o cheiro abafado de pedra molhada - Annie MacDonald acabara de limpar o corredor - mas ela via a sala da frente de uma hospedaria do século XVIII, e sentia o cheiro do fumo.»

Fonte: contracapa do livro.

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas Públicas do Concelho de Arganil.

Leia, porque ler é um prazer!

terça-feira, 15 de março de 2022

Sugestão de Leitura: "O paradoxo do cérebro" de Pedro Cabral

 

Lisboa: Temas & Debates, 2021
ISBN 978-989-644-680-2


«O que aconteceria se conseguíssemos registar na memória as experiências, os factos e os acontecimentos de forma indelével sem qualquer hipótese de desvio ou reinterpretação? Teria alguma vantagem? Tornar-nos-ia diferentes? Neste livro, o neurologista Pedro Cabral percorre o caminho das memórias imutáveis, através das histórias de crianças e jovens que acompanhou e que nos apresenta com grande sensibilidade. Com ele vamos desvendando as contradições e a aparente imperfeição que caracterizam a natureza da cognição humana.»

Isabel Pavão Martins, neurologista, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa

«A memória não é um simples registo de tudo o que vivemos. Ao contrário do que gostamos de pensar, a nossa memória é limitada e não conseguiria guardar toda a informação. A sua função é ir atualizando o registo. O seu trabalho é uma reescrita constante da nossa história, que assim se vai modificando com o tempo, tal como o nosso corpo vai mudando e o mundo à nossa volta se vai alterando. A maravilha da memória, a maravilha do funcionamento do cérebro, é, paradoxalmente, fruto das suas limitações.
Este livro, feito a partir da experiência clínica, é sobre a memória. Não sobre as falhas de memória que vemos no envelhecimento e nas doenças degenerativas, mas sobre o que acontece quando as memórias não se conseguem modificar. O autismo surge como um exemplo maior dessa dificuldade em esquecer: quando o cérebro não consegue atualizar os seus registos, tudo à volta tem de ficar igual. O autismo é por isso uma doença da memória, consequência de um passado que resiste a ser reescrito.»

Pedro Cabral

Se quiser saber mais sobre este livro e o seu autor leia:

Pedro Cabral: "A incapacidade de esquecer é uma maldição" por Jorge Andrade

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

Leia, porque ler é um prazer!

segunda-feira, 4 de junho de 2018

"Saudades..."


Tenho fome dos sorrisos de sol a iluminarem-me a brancura da pele e da preguiça do vento a agitar a folhagem ao lusco-fusco de um fim de Junho quente, embalando os afazeres esvoaçantes dos pássaros antes do recolher. Das falaças e gargalhadas das gentes, que, de ferramentas ao ombro e cestas à cabeça, enchiam os caminhos por entre pinhais e veredas a cheirarem a erva fresca. Da embriagante languidez do entardecer, espraiando-se sob os campos de trigo doirado, quase maduro. Dos dias cálidos a prometerem sinfonias de grilos, de cigarras, de ralos e de rãs noites adentro. Tenho saudades do bailado ondulante das borboletas na Primavera, beijando todas as flores e do verde fluorescente dos luzecus na parede do meu quintal. Dos gafanhotos saltitantes que me deliciava a tentar apanhar nas ervas secas junto à eira onde se malhava o centeio e se estendia o milho ao sol. Tenho ainda frescos na memória, os lírios que enfeitavam o jardim abandonado, em frente à casa alta de xisto da prima Augusta, na mesma rua da minha avó e em cujo telhado de lajes quentes, me sentava junto dela e me demorava a ouvir as suas histórias de encantar, que me contava por entre costuras de dedal e agulhas difíceis de enfiar.
Lembro-me das dálias rubras sem canteiro, nascidas da terra, junto ao corrimão das videiras. Das tangerinas que salpicavam o chão de cor-de-laranja em volta da tangerineira e das outras que colhíamos com a escada da azeitona. Dos abrunhos de frança junto à passagem da casa, a pingarem de mel... das abelhas gulosas e da bilha de barro onde se guardava a água fresca que nos matava a sede quando em tardes de trabalhos intermináveis e longe das nascentes onde bastava pousar os lábios sobre a água corrente da levada.
Tenho saudades dos enfeites e das festas, da música e do largo cheio de alegria e de gente...!


Texto da autoria de Cleo (Lurdes Dias), 
natural da aldeia de Pai das Donas

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Pedaços de ontens


De vez em quando, coisas despropositadas a povoarem-me a memória. Restos de colecção de tempos de outrora a intrometerem-se e a misturarem-se com as coisas de agora. Não roupas nem móveis. Episódios longínquos e inconformados, porque atirados ao vão do esquecimento. Por exemplo, uma cesta de verga à cabeça de uma mulher, tapada com um pano de xadrez branco e encarnado a surgir lá ao longe no caminho em que fetos altos a engolirem-lhe o corpo. Apenas a cesta apoiada na rodilha de trapos e à medida que se aproximava, uma nuvem invisível com cheiro a guisado a poluir o aroma dos pinheiros. Seria perto do meio-dia, porque ao meio-dia horas de almoço para quem ao romper da aurora se tinha já feito ao caminho. Isto, porque o lugar onde as heranças das terras de cultivo, perto das nascentes da serra numa fartura de águas porque as sementeiras e o renovo a carecerem de amiúdes regas, mas, está visto, que distantes das casas da aldeia. Portanto, meio dia de trabalho no corpo e sonoros roncos a protestarem do vazio do estômago. De maneira que, chegada a cesta, um outro ânimo a iluminar o rosto onde o suor em bica e que um lenço puxado do bolso se apressava em limpar. Toalha estendida no chão de uma assentada de sombra e coisas que se tiravam da cesta a encherem-na de farturas variadas para além do guisado de bacalhau que já se havia antes anunciado. E num instante, todos sentados de roda do farnel e entre uma garfada e um pedaço de broa molhado no molho cor de laranja por causa do colorau, uma estória ou uma chalaça a puxar o riso fácil de quem, para ser feliz, não precisava de muito mais que a dureza da vida herdada de geração em geração desde tempos ancestrais. Não conheciam nem ambicionavam outra visto que aquela já lhes ocupava a quase totalidade da existência. Aliás, a história do "Corecho" que a minha avó me contava vezes sem conta, era um bom exemplo disso mesmo - nem tempo para arranjar uma esposa o pobre do homem tinha - pois que da sementeira até à recolha do renovo, era uma trabalheira que ninguém fazia ideia! Ele era o sacho, a assenta e a rega... os molhos de mato para os currais onde o estrume... a azeitona... as batatas... as videiras... os feijões e o milho...

Texto da autoria de Cleo (Lurdes Dias), 
natural da aldeia de Pai das Donas