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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Fundo local: Amarga Mente, de Matilde Lourenço Martinho

[Carvalhosa] : Oficina da Escrita, 2026
ISBN 978-989-93332-23-2

Amarga Mente é a obra de estreia de Matilde Lourenço Martinho, uma jovem autora natural de Vila Cova de Alva, que descobriu na escrita uma forma profunda de expressão pessoal.

Mais do que um simples conjunto de poemas, este livro revela uma escrita intensa e autêntica, onde a autora se expõe sem reservas, recusando o conforto das máscaras e enfrentando, com coragem, o olhar e o julgamento alheio. Nos seus versos encontramos uma verdade crua e desarmante, que convida o leitor a ir além da superfície e a mergulhar nas emoções e inquietações que percorrem a obra.

Escrito num curto período de tempo, Amarga Mente nasce de um processo exigente e profundamente emocional. Como a própria autora refere, trata-se de uma travessia interior marcada por “espinhos e ansiedades, lágrimas e incertezas”, onde a escrita surge como forma de revelação do íntimo.

O livro apresenta ainda o sugestivo subtítulo — “das grandes perdas podem nascer grandes histórias” —, refletindo a capacidade de transformar experiências difíceis em criação literária. A capa, pensada como a “porta de entrada” para este universo, reforça essa dimensão simbólica e emocional.

Tal como a citação de Sylvia Plath que abre a obra — “escrevo apenas porque há uma voz dentro de mim que não se cala” —, também em Amarga Mente encontramos uma voz inquieta, sincera e profundamente humana, que se afirma através da poesia.

Uma leitura marcante, que evidencia a força da palavra como espaço de liberdade, introspeção e verdade.

Disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

Leia, porque ler é um prazer!

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Tempo para a poesia: "Conquista" de Miguel Torga

 



Conquista

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Fundo local enriquecido: "Pó do Açor" de Tonito do Solheiro


"Pó ao Açor" é um livro da autoria de Tonito do Solheiro, pseudónimo literário de António Gouveia Coisinha.

O autor, natural da aldeia de Sobral Magro, onde passou a sua infância, cedo rumou para Lisboa. Não obstante a Serra do Açor faz parte da sua identidade, realidade que transparece nas páginas da sua obra poética.

Maria de Lourdes Martinho, autora do prefácio, diz-nos que "cada poema é um pedaço do coração do autor", sendo que "a Serra do Açor não é apenas cenário: é personagem, confidente e, acima de tudo, fonte inesgotável de inspiração".

Pó do Açor

Nascido no Solheiro, do pó do Açor,
Serra da canseira, no centro da Beira,
Sete no viveiro, último sonhador,
Com berço na leira, vista na ribeira.

O viver certeiro, fazendo de pastor,
Em cada ladeira, topada ligeira,
O dia inteiro, brincando com amor,
Pico da silva, é tirado na eira.

Do Coição vezeiro, ao Covão do valor,
Com erva cidreira, a cura que cheira;
A ver do outeiro o gémeo sabor,
Enxada certeira da vida inteira.

In: Pó do Açor

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil

quarta-feira, 19 de março de 2025

Tempo para a poesia: "A memória" por Duarte Peixoto

Lisboa: Chiado Editora, 2014
ISBN 978-989-51-1347-7
 A memória

A memória é de todos os livros o mais antigo
E é também aquele escrito por mais autores
Todos nele deixaram pensamento, voz, cores
Ela tem coisas que entender eu não consigo!

A memória é epopeia, drama, crónica, artigo
Com páginas não só escritas pelos escritores
Nela há toda a espécie de cheiros e sabores
Com relatos vivos do abastado e do mendigo

A memória é mãe das mais sacras escrituras
Elaboradas e conhecidas da humana mente
Dos Vedas, Maias, Bíblia ao Corão em Meca

É ao lado dos sigilos das Celestiais criaturas
Uma inacabada obra na estante bem presente
Na do Criador. Divina e universal biblioteca.

                Duarte Peixoto in Rasgos de Memória

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Recordando Maria Teresa Horta – “Eu sou a minha poesia”

 

A escritora Maria Teresa Horta, a última das "Três Marias", faleceu no passado dia 4 de fevereiro, aos 87 anos.

Nascida em Lisboa em 1937, Maria Teresa Horta licenciou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e trabalhou como jornalista no jornal A Capital. Iniciou a carreira literária na poesia, na década de 1960, mas acabaria por se expandir também para o romance e o conto.

Na poesia, é autora de Espelho Inicial, Poemas para Leonor, Ambas as mãos sobre o corpo, Anunciações, entre outros, e co-autora, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, das internacionalmente reconhecidas Novas Cartas Portuguesas (1972).

No final do ano passado, a escritora foi incluída na lista da estação britânica BBC das mulheres mais influentes e inspiradoras de todo o mundo, ao lado de cientistas, artistas ou ativistas.

Recebeu diversos prémios literários e foi agraciada, em 2004, com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2022, com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade.

Para saber mais consulte:

sábado, 15 de fevereiro de 2025

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Um poema de amor em dia de S. Valentim




Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.

                                                Vinicius de Moraes

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

4 poemas de Miguel Torga




Biografia


Sonho, mas não parece.
Nem quero que pareça.
É por dentro que eu gosto que aconteça
A minha vida.
Íntima, funda, como um sentimento
De que se tem pudor.
Vulcão de exterior
Tão apagado,
Que um pastor
Possa sobre ele apascentar o gado.

Mas os versos, depois,
Frutos do sonho e dessa mesma vida,
É quase à queima-roupa que os atiro
Contra a serenidade de quem passa.
Então, já não sou eu que testemunho
A graça
Da poesia:
É ela, prisioneira,
Que, vendo a porta da prisão aberta,
Como chispa que salta da fogueira
Numa agressiva fúria se liberta.

 In: Orfeu Rebelde

Sísifo

Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

In: Diário XIII

História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

In: Antologia Poética

Parque Infantil

Joga a bola, menino!
Dá pontapés certeiros
Na empanturrada imagem
Deste mundo.

Traça no firmamento
Órbitas arbitrárias
Onde os astros fingidos
Percam a majestade.

Brinca, na eterna idade
Que eu já tive
E perdi,
Quando, por imprudência,
Saltei o risco branco da inocência.

E cresci.

In: Antologia Poética

Poemas lidos durante o evento "Miguel Torga, 30 anos depois: um legado que perdura", realizado na Biblioteca Municipal Miguel Torga - Arganil, no dia 17 de janeiro de 2025


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Tempo para a poesia: "Ao leitor" de Paulo Ramalho

Ponta Delgada: Letras Lavadas, 2024
ISBN 978-989-735-571-4
Ao leitor

Excelentíssimo leitor
solicito a sua melhor atenção
para a possibilidade de poema
que esta página tão arduamente nega
De todos os temas que habitualmente
dão sentido aos meus versos
nem o silêncio lhe posso hoje oferecer
porque o outono me traz
de mãos enregeladas
ocupado com coisas tão melancólicas
quanto podar roseiras
ou limpar as folhas do jardim
Mas também sobre isso nada será dito
enquanto o trabalho não terminar

Paulo Ramalho in Órbitas elípticas em torno do silêncio

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil


terça-feira, 26 de novembro de 2024

Tempo para a poesia: "É tão fundo o silêncio..."

Lisboa: Livros Horizonte, [1970]

É tão fundo o silêncio...

É tão fundo o silêncio entre as estrelas!
Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.
Mas lá, entre as estrelas, é que se ouve
O íntimo rumo que abre as rosas.

            José Saramago in Provàvelmente Alegria

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Tempo para a poesia: "Castanho" de Manuel Couto Viana




Castanho

Já não voam besouros no ar quente.
Foi-se o Verão embora.
É Outono agora,
tudo está diferente.

É castanha a terra
onde a pá se enterra.

É castanha a folha
que a chuva já molha.

O avô Inverno chega das montanhas,
com os bolsos repletos de castanhas,
e vai sentar-se ao lume da lareira,
fumando o seu cachimbo de madeira.

E para o imitar
(vejam o disparate!)
o neto põe-se a trincar
um pau de chocolate.

António Manuel Couto Viana, Versos de Cacaracá, Litexa Portugal, 1984.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Tempo para a poesia: Dia de Todos os Santos

 

The Forerunners of Christ with Saints and Martyrs de Fra Angelico

Dia de Todos-os-Santos

Supõe que morri
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.

Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...

Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.

                                José Blanc de Portugal

Amor constante para além da morte

Pode fechar-me os olhos a derradeira
sombra que de mim leva o branco dia,
e livrar de tudo o que prendia
a alma ansiosa, a hora que se abeira;

mas não deixará na margem da ribeira
a memória dos sítios onde ardia:
minha chama nada na água fria
e a dura lei enfrenta altaneira.

Alma de que todo um deus foi prisão,
veias onde tanto fogo foi gerado,
medulas em gloriosa combustão:

o corpo deixará, não seu cuidado;
cinzas hão-de ser, mas com coração;
serão pó, sim, mas pó apaixonado.

                        Francisco de Quevedo (1580-1645)
                        Tradução: António Simões

terça-feira, 1 de outubro de 2024

Um poema para assinalar o Dia do Idoso

autor: Narinbg

O Dia Internacional do Idoso comemora-se anualmente a 1 de outubro. Este dia foi instituído em 1991, pela Organização das Nações Unidas (ONU), com o objetivo de sensibilizar a sociedade para as questões do envelhecimento e a necessidade de proteger e cuidar da população mais idosa.

Singelamente e como forma de assinalar esta data partilhamos um poema de Fernanda de Castro, conhecida poetisa portuguesa, que reflete um pouco do que é chegar a uma idade avançada…

Alma Serena

Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.

Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.

Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.

Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.

Fernanda de Castro, in "Ronda das Horas Lentas"

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Fundo local enriquecido: "A minha aldeia e a Serra do Açor" de Tiló Henriques

 


No livro  “A minha aldeia e a serra do Açor: memórias e saudades”,  apresentado no passado dia 8 de setembro, na Biblioteca Alberto Martins de Carvalho, reúne um conjunto de poemas e alguns textos em prosa, organizados em 10 capítulos, a autora Tiló Henriques desenha com emoção, saudade e nostalgia os seus sentimentos, olhares, memórias e sonhos sobre a sua aldeia berço, Monte Frio, e a Serra do Açor que a abraça e envolve.

“Meu terno berço (p. 35)

Meu querido amado belo doce amigo
Ecoa uma vida a correr sem te apreciar
Em verões fugazes momentos contigo
Chegou o Outono da vida e quero-te amar
Apaixonei-me por ti e em ti me deleito
Em teus olhos verdes perco o meu olhar
Na tua lua de prata e estrelas me deito
Só tu tens a magia e arte para me acalmar
Andam em teu redor pássaros borboletas
Clamam em memórias saudades inquietas
És dos poetas sonho fonte de luz inspiração
Meu Monte Frio de sol brilhante e aragens
Monte de naturezas bucólicas e selvagens
Meu terno berço que aquece o coração…”

Tiló conduz o leitor até a um passado em que Monte Frio, tal como tantas outras aldeias que polvilham as nossas serras, era repleta de vida, levando-nos a recordar como era o dia-a-dia das pessoas que as habitavam e registando em poema este testemunho para a posteridade.

O conjunto de poemas intitulado “Mantas de fitas da aldeia” evoca este passado, para alguns já bem longínquo, com mestria. Trata-se de um testemunho vívido para o futuro, para aqueles que agora já só vêm à aldeia nos meses de verão e “apenas encontram casas habitadas de fantasmas, sombras, vazio e ausência.”

Para a Tiló a aldeia parece fundir-se com o seu próprio ser. “Esta terra que sou eu”, escreve a determinado momento, onde se sente “grata e reconciliada, de tantos grilhões, libertada, cansada, perdida, mas reencontrada, de tantas penas e cruzes carregada…” (p. 33)

Finalizo endereçando os parabéns à Tiló, por este que é já o seu quinto livro e a todos os que sentem a Serra do Açor como sendo sua recomendo que o leiam e a sintam, tal como a Tiló o faz.

Miriella de Vocht


Leia, porque ler é um prazer!

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Tempo para a Poesia: "Uni Versos da memória"


«... O Segundo Milénio acabou ontem…»

O Segundo Milénio acabou ontem,
hoje começou outro! É o terceiro!
Talvez um dia ambos se confrontem
esquecendo o outro antes, o Primeiro!

Mil anos mais mil anos! Mas que estranha
esta expressão, que a mente estática,
porque nem sempre e espírito acompanha
a pronta evolução da Matemática…

E antes destes, quantos mil atrás,
e quantos mais nas previsões eternas?
Será que o mundo vai viver em paz,
ou voltará o tempo das cavernas?

Difícil entender os seres humanos
nos seus loucos anseios de progresso,
se a Ciência vai em frente por cem anos,
a Guerra impõe noventa em retrocesso!

Na hora de mostrar o seu valor
o Homem busca a vastidão do espaço,
da pré-história ao computador,
das pinturas rupestres a Picasso…

A desfiar engano e desengano,
a vida continua, o tempo foge,
atinge-se um milénio, ano após ano…
O Terceiro aí está, começa hoje!...

Uni Versos da memória in
Silvino Lopes

 Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas Públicas do Concelho de Arganil.

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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Tempo para a Poesia: "Mensagem: sonetos"

NADA SOMOS

Não somos nada… poeira de tempo indefinido…
Aragem breve dum sonhar diluído em bruma…
Somos náufragos dum mar d'enganadora espuma,
Caminheiros errantes dum tempo já fugido…

Nada somos… breve quimera perdida,
Pequeno amargor d'ilusões transcendentais…
Sonhos sublimes esquecidos em bolorentos anais,
Corpos imolados em braços de Morte e Vida!

Oh! Humanidade! Pensares errados e desfeitos!...
Homens mortos, Crianças fenecidas em frios leitos,
Mãos erguidas em altos quereres elevados! …

Nada somos … Poeira d'espaço transcendental e terreno…
Abraço frustado, beijo perdido, ruir d'amor fraterno,
Pó transparente de quereres por vendavais espalhados!...

Lucília Dos Santos Nunes in
Mensagem: sonetos

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas Públicas do Concelho de Arganil.

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sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Tempo para a Poesia: "Tempestade na alma"

RESISTENTES DA ALDEIA

Aqui, perto do céu
Esperam-se as noites
Esperam-se os dias
Sem alvorada.
Espera-se o muito
Espera-se o pouco
O tudo… e o nada

Espera-se o sol
Espera-se a chuva
E as vítimas da solidão
Mas os companheiros
Do caminho
Não os deixam cair no chão

Há sempre alguém
Com presença,
Feita de serenidade,
E... perseverança
Levada com teimosia
Mas cheia de esperança

Adriano Pacheco Paxiano in
tempestade na alma

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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Tempo para a Poesia: "Avós são reis por detrás de um vidro"

SÉPIA

No album de marroquim,
Que o artesão esmerou,
Como no Império do Fim
Onde a arte começou,

Quebra-se as vagas de sal
O último navio afundado
Ao largo, pelo vendaval,
A sépia fotografado

Pelo avô que o destino
Fez andante de torna-viagem,
Quando o levou, inda menino
À mais distante paragem

Desse perdido oriente
Onde o sol, frio, distante,
Perde a cor, subitamente,
Até ao último instante.

No retrato, que os sais de prata
Resgatam p'rà eternidade,
Só o olhar então desata
Laços d'alma, com saudade.

Vergílio Alberto Vieira in
"Avós são reis por detrás de um vidro"

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas Públicas do Concelho de Arganil.

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sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Tempo para a Poesia: "Poemas"

OH, NÃO AMES DEMASIADO TEMPO

Amada, não ames demasiado tempo;
Eu amei tanto, tanto
E fui passando de moda
Como uma velha canção.

Ao longo desses anos da juventude
Não podíamos distinguir
O nosso pensamento do pensamento alheio
Porque tão unidos éramos apenas um.

Mas em breve, breve instante ela mudou -
Oh, não ames demasiado tempo
Ou irás passando de moda
Como uma velha canção.

W.B. Yeats in 
Poemas

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas Públicas do Concelho de Arganil.

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sexta-feira, 26 de julho de 2024

Tempo para a Poesia: "Poesia"

Canção Vermelha

- «Amo-te!» E cerras os dentes.
- «Amo-te!» E fico enleado,
Como se fora assaltado
Numa selva por serpentes.

Nem um fauno alucinado
Tem ímpetos mais ardentes;
Nem a sibilas dementes
Este delírio sagrado.

Meus lábios, que a febre inflama,
E as faces, estão em chama
Como bocas de fornalha.

E ardem-te os olhos surpresos;
São dois archotes acesos
Numa noite de batalha!

Jaime Cortesão in
Poesia

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas Públicas do Concelho de Arganil.

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