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quinta-feira, 12 de março de 2026

Sugestão de leitura: Chuva Braba, de Manuel Lopes

Entre as leituras associadas ao tema “Tempestade”, destaca-se o romance Chuva Braba, de Manuel Lopes, publicado em 1956 e considerado uma das obras marcantes da literatura cabo-verdiana.

A narrativa decorre na ilha de Santo Antão e acompanha o quotidiano de uma comunidade profundamente marcada pela seca. Entre dificuldades económicas, o trabalho árduo da terra e o sonho da emigração, as personagens vivem numa permanente tensão entre partir em busca de melhores condições de vida ou permanecer na terra onde nasceram.

Neste contexto, a natureza assume um papel determinante. A ausência de chuva condiciona não apenas a agricultura, mas também as escolhas, os medos e as esperanças da população. A vida coletiva é moldada por um clima incerto, que define o ritmo das estações e o destino das pessoas.

Curiosamente, neste romance a tempestade não surge da forma mais habitual na literatura — associada ao excesso de chuva ou à violência dos elementos. Em Chuva Braba, o drama nasce precisamente da falta de chuva. A seca prolongada domina a paisagem e transforma a chuva num acontecimento quase milagroso, aguardado com ansiedade por todos.

A chuva torna-se, assim, muito mais do que um fenómeno natural: é esperança, sobrevivência e promessa de renovação. A terra espera-a, as pessoas esperam-na, e todo o quotidiano parece suspenso nesse desejo coletivo.

Ao longo da obra surgem também passagens particularmente expressivas, como a comparação entre a abundância das águas do Amazonas e a realidade árida da ilha de Santo Antão, evidenciando de forma marcante o contraste entre dois mundos.

Chuva Braba é, acima de tudo, um retrato profundo da relação entre o ser humano e a natureza e um testemunho literário sobre resistência, identidade e esperança.

Miriella de Vocht

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

Leia, porque ler é um prazer!

terça-feira, 12 de novembro de 2024

Tempo para a poesia: "Castanho" de Manuel Couto Viana




Castanho

Já não voam besouros no ar quente.
Foi-se o Verão embora.
É Outono agora,
tudo está diferente.

É castanha a terra
onde a pá se enterra.

É castanha a folha
que a chuva já molha.

O avô Inverno chega das montanhas,
com os bolsos repletos de castanhas,
e vai sentar-se ao lume da lareira,
fumando o seu cachimbo de madeira.

E para o imitar
(vejam o disparate!)
o neto põe-se a trincar
um pau de chocolate.

António Manuel Couto Viana, Versos de Cacaracá, Litexa Portugal, 1984.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Natal da minha infância/ Contrastes

As famílias reuniam-se à volta da farrusca e tosca lateira ou da incandescente braseira de lata ou de cobre, apoiada no estrado de madeira, lavado com sabão amarelo. Bebiam chá, comiam as “filhoses”, os sonhos, as rabanadas, as broinhas e tagarelavam noite dentro.

O coração saltitava no peito dos pequenos, “bêbedos de sono”, espremendo teimosamente as pestanas, cada vez mais pesadas…

Dormiam em sobressalto, estrebuchando de pesadelos, na ânsia de ver um MENINO JESUS, descalço, pezinhos rechonchudos, descer pela chaminé a gemer de cal branca ou forrada de jornais. Pela calada da noite, pé ante pé, evitando qualquer ruído, vinha pôr o presente em cada meia ou num roto sapatinho, reluzente de graxa.

Os olhitos brilhavam como pirilampos, ao acordar durante a noite, pelo ténue rumor do papel que os Divinos pés roçavam de mansinho.

Na manhã seguinte, trocavam, euforicamente, informações com as outras crianças da rua, algumas descalças, pés enregelados, monco no nariz, olhos remelados.

O Menino tinha deixado um pacotinho de papel pardo com um coscorel, dois rebuçados, um torrão de açúcar, sonhos de abóbora e, nas pequeninas mentes, sonhos, sonhos, sonhos até às estrelas celestes…

Neste momento, o pensamento dos sobreviventes voa para o Céu… tentando, com saudade, descobrir a Lurdes e a Eulália, as mais entusiastas.

Em casas mais abastadas, reunida à mesa da consoada uma família de mais de 30 pessoas, onde o peru era rei e a alegria e a amizade não tinham limites, reluziam uma máquina de costura, um fogão ou um minúsculo regador de lata, as panelinhas de alumínio “topo de gama”, um automóvel, um baralho de cartas, uma gaita ou um assobio de barro, retirados do grande saco que aparecia inexplicavelmente junto da lareira, enquanto consoávamos.

Corridas loucas por toda a casa à descoberta do Menino Jesus! Em vão…

- Para o ano não vamos estar distraídos. Havemos de apanhá-lo!

Brinquedos partilhados em jogos inocentes com vizinhos ou amigos.

Onde estará reunida esta enorme família? Que vazio deixou no coração das, apenas… três sobreviventes?!!!...

O Presépio, de musgo verde viçoso, carumas e pinhas da Mata ou da Quinta da D. Guilhermina, era feito ao cimo da Quelha sem saída. As figuras eram do barro da Cerâmica, modeladas toscamente com cabelos de feno ou de ervinhas, feitas com tanto entusiasmo e primor que boca, olhos, cabelos e mãos dos artistas eram tudo barro como o burro, a vaca ou os Reis Magos!

Só o menino, emprestado por algum crente adulto, tinha a perfeição das vistosas imagens compradas nas barracas da feira do Mont’Alto. Ele era, afinal, o Divino aniversariante. Fazia quase 2000 anos, mas nascia todos os anos, na noite de Natal, ao cimo da nossa Quelha sem saída, no Cimo de Vila.

Para o aquecer, em substituição do cepo, acendia-se uma pequena fogueira e as brasas eram levadas para as braseiras ou escalfetas das casas mais frias.

O Pai Natal era desconhecido no nosso tempo. Não ousava sair de casa, sentado ao borralho, lá no Pólo Norte. Por acaso já estive na casa dele. Disse-me que carregava tantos brinquedos, para ajudar o Menino Jesus, aborrecido com tanto peso material, desnecessário.

Outrora, o AMOR era o manto azul luminoso que agasalhava cada lar com a centelha de LUZ, trazida da Missa do Galo.

O Pai Natal dava razão ao “Principezinho” de Saint-Exupéry:

“Só com o coração é que conseguimos ver claramente. O essencial é invisível aos olhos!”

Que neste Natal, o Presépio vivo, viva em cada coração!

M. Olívia Nogueira
Arganil, Dezembro 2021

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Tempo para a poesia LXXXVI

 

Poema de Eduardo Gonçalves, para o serão 
Amigos de Ler de novembro, que teve como tema TEMPO

“Amigos de Ler” é um clube de leitores livres e apaixonados pelas suas leituras. Reunimos-nos na segunda segunda-feira do mês, às 21:00 horas, na Biblioteca Municipal de Arganil | Miguel Torga, com os mais variados pretextos – uma ideia, um autor, uma cor, uma página... Memórias dos textos que temos lido.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Serão dos Amigos de ler dedicado à palavra "Madrugada"



Poema e música apresentada pelo autor, Eduardo Gonçalves,
no serão dos Amigos de Ler, no dia 11.10.2021

“Amigos de Ler” é um clube de leitores livres e apaixonados pelas suas leituras. Reunimos-nos na segunda segunda-feira do mês, às 21:00 horas, na Biblioteca Municipal de Arganil | Miguel Torga, com os mais variados pretextos – uma ideia, um autor, uma cor, uma página... Memórias dos textos que temos lido.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Os sonhos na literatura

 

Este mês, o serão mensal dos Amigos de Ler teve como tema os sonhos! Partilhamos aqui um texto baseado no original de Thomas Weatland que nos apresenta um resumo de como ao longo dos tempos os sonhos foram abordados na literatura.

OS SONHOS NA LITERATURA

Os motivos dos sonhos são abundantes na tradição literária ocidental. As obras literárias não apenas mostram um fascínio contínuo pelo sonho ao longo dos tempos, mas também mostram mudanças nas crenças das pessoas sobre a natureza e o processo de sonhar. Os primeiros escritos ocidentais dizem-nos que os antigos acreditavam que os sonhos eram causados ​​por deuses, demónios e mortos.

Os sonhos foram pensados ​​para influenciar as acções dos vivos ou para prenunciar eventos. Este motivo é encontrado em todas as epopeias homéricas.

Platão e os estóicos opuseram-se a essas crenças comuns sobre os sonhos proféticos, sugerindo que os sonhos eram gerados internamente, e não por poderes externos do sobrenatural. Pensadores como Hipócrates elaboraram a noção platónica de sonho e conjecturaram que os sonhos eram eventos estritamente fisiológicos. Hipócrates acreditava que a mente continuava funcionando, causando sonhos, enquanto o corpo estava inoperante. Essa perspectiva platónica mudou a noção dos sonhos de uma manifestação mística externa para uma manifestação interna psicológica ou filosófica.

Um conceito final sobre os sonhos que coexistiram com essas outras teorias foi mais bem articulado por Heródoto que acreditava que os sonhos simplesmente reflectiam e representavam os pensamentos e preocupações do sonhador ao acordar. A maneira de Heródoto entender os sonhos sugere que eles podem ser vistos como espelhos da realidade.

No período de Elizabeth, a visão herodiana do sonho tornou-se a perspectiva mais prevalecente, exemplificada pelas obras de Shakespeare, que estão cheias de motivos oníricos.

Manfred Weidhorn (1988) sugere que as filosofias materialistas do século XVII de Bacon, Locke e Hobbes causaram uma diminuição nos motivos literários dos sonhos. Esses três empiristas estavam preocupados principalmente com o universo mensurável e encontraram pouco mérito em reflectir ou escrever sobre estados subjectivos; padrões semelhantes de pensamento persistiram no Iluminismo racionalista de 1700. No século XIX, o advento do movimento romântico abriu novamente espaço para a experiência subjectiva. Esse domínio ampliado do discurso permitiu que o sonho com eles regressasse à literatura.

No século 19, a insatisfação com o estado actual da sociedade levou a um fascínio renovado pelos estados oníricos como caminhos para uma maior autoconsciência. Constituem exemplos deste fascínio renovado pelos sonhos As Confissões de um Comedor de Ópio Inglês, de Thomas De Quincey, "Kubla Khan" de Samuel Taylor Coleridge e Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. Quando o sonho voltou à moda literária, pesadelos vividos apareceram em Guerra e paz e Anna Karenina de Tolstói , bem como em Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov de Dostoiévski.

 A literatura moderna foi muito influenciada pela teorização psicológica de Sigmund Freud. As escolas freudianas de pensamento aumentaram a incorporação de temas relacionados com os sonhos na ficção. Com o aumento da atenção popular aos sonhos, os escritores de ficção modernos não apenas utilizaram os sonhos para desenvolver personagens psicologicamente, mas também começaram a tentar capturar a essência do sonho em obras altamente surrealistas. Os exemplos incluem A montanha mágica de Thomas Mann, O sonho e A Sonata dos Espectros de August Strindberg, O processo e O castelo de Franz Kafka, e Ulisses e o Finnegan’s wake de James Joyce. Essas obras representam outro passo profundo na evolução das atitudes públicas e académicas em relação aos sonhos - desde pensá-los como fenómenos sobrenaturais ou simples espelhos da realidade até usá-los para revelar aspectos importantes da identidade pessoal. Uma pesquisa sobre o sonho reflectido na literatura não apenas mostra o nosso fascínio contínuo por esse fenómeno nocturno, mas também ilustra a maneira como cada geração pensou e explicou o sonho.

Texto adaptado por Miriella de Vocht
a partir de Sleep and dreams in literature de Thomas Weatland

terça-feira, 9 de março de 2021

Paris da minha ternura

 




Mário de Sá-Carneiro nascido em 1890, em Lisboa, passou grande parte da vida em Paris, onde contactou com os grandes artistas do seu tempo. Assistiu à maior revolução artística do seu século — a Vanguarda –, algumas vezes com grande cepticismo, outras com entusiasmo. O relato dessa aventura está nas cartas que trocou com Fernando Pessoa, escritor, “irmão de Alma”. Com ele fundou em 1915 a revista Orpheu, um dos mais importantes acontecimentos literários do século XX em Portugal.

Sá-Carneiro partiu para Paris em 1912, com o pretexto de cursar a Faculdade de Direito, atraído pela vida cultural e boémia, sustentada pelas mesadas que o pai lhe remetia com intermitências.

Sá-Carneiro escreveu todos os seus poemas entre 1913 e 1916, a maior parte deles em Paris. Em 1914 saiu o seu primeiro livro de versos, Dispersão, em edição do autor, e apenas em 1937, vinte e um anos após a sua morte, a Editorial Presença publica o seu segundo livro do mesmo género, Indícios de Oiro. Os manuscritos que viriam a compor esse volume haviam sido enviados a Fernando Pessoa antes de Sá-Carneiro, a 26 de Abril de 1916, se suicidar num quarto do Hotel Nice, em Paris, e ficado a seu encargo para que os publicasse da maneira que lhe parecesse melhor. 

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A ideia de cosmopolitismo é um traço da mentalidade modernista. Os autores desta corrente veêm a cidade como sendo fonte de inspiração. Um meio de expandir ideias e mundo.

Para Sá-Carneiro, foi mais de que isso. Tratou de se distanciar do quotidiano que o rodeava, de Lisboa e dos conhecidos. De algum modo isolar-se e afastar-se do que lhe gerava ansiedade.

No poema  Abrigo, Sá Carneiro canta a cidade luz com a nostalgia e o distanciamento de um exilado, de quem se projecta para longe dela.

Mais de que cantar Paris pelos sentidos, parece cantá-la pelos afectos. Os estudos em torno da obra poética do autor, levam a crer que a forma como Sá Carneiro evoca Paris é muito maternal, relacionando-se de algum modo com a sua própria infância e a perda da mãe em terna idade. Quer a relação com Paris, quer a relação com a infância parece ser feita da dualidade entre o que é sonhado e o que é vivido. Embora o aproxime da infância, Paris é também um bem distante, ao mesmo tempo sua “febre” e sua “calma”, “Mancenilha e bem-me-quer”, “lobo e amigo”, sua “Lua” e sua “Cobra”.

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O texto acima publicado foi contributo para o serão dos Amigos de Ler de março, que teve como tema a palavra CIDADE(S).

segunda-feira, 1 de março de 2021

Amigos de ler - Março


O próximo serão dos AMIGOS DE LER realiza-se no dia 8 de março, pelas 21h00, e vai ter como tema a palavra “CIDADE(S)”.

Quem quiser participar pode fazer a sua inscrição até 8 de março às 16.00 horas para bib-arganil@cm-arganil.pt

Boas leituras!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A arte do silêncio

Pode parecer paradoxal analisar a literatura em termos de silêncio. A literatura faz-nos saber, ver, ouvir e sentir através das palavras, expressa e comunica ideias; contrariamente o silêncio é a ausência de fala, barulho ou ruído. O silêncio sugere mudez, quietude, obscuridade e sigilo. Não importa o quão anulante o termo e as suas conexões possam parecer, é importante lembrar que o silêncio é ouro. De facto o silêncio é uma comodidade na literatura, tem uma linguagem própria. Diz-nos o antropólogo James Hall que “a linguagem do silêncio é uma tradução de uma série de comunicações contextuais complexas e não-verbais em palavras”. Não significa apenas que as pessoas comunicam entre si de forma não-verbal, mas que existe um universo inteiro de comportamentos inexplorados, não examinados.

O silêncio funciona fora da perceção consciente e em justaposição às palavras.

Claro que em literatura a ausência de palavras não existe. No entanto a forma como se escreve ou descreve algo pode nos traduzir a noção de silêncio.

Para este serão a minha escolha de leitura recaiu sobre o livro “As pequenas memórias” de José Saramago.

Publicado em 2006 é, sem rigor cronológico, a autobiografia do escritor José Saramago e abrange o período entre os quatro e os quinze anos da sua vida.

Logo nas primeiras páginas Saramago partilha um poema por ele escrito enquanto adolescente. Protopoema, onde é clara a forma como a palavra pode dar a ideia de som ou a ideia de silêncio:

“Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me parece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim ou para mim fluem.
Continuo a puxar, não já memória, apenas, mas o próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre, e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e firme pulsar de coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu corpo despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumorosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.”
O poema dá-nos uma ideia de silêncio pacífico e tranquilo. No entanto nem sempre o silêncio transparece esses sentimentos. Mais a frente quando Saramago recorda um pesadelo recorrente escreve assim: “aquele pesadelo recorrente em que me via encerrado num quarto de forma triangular onde não havia móveis, nem portas, nem janelas, e a um canto dele «qualquer coisa» (…) que pouco a pouco ia aumentando de tamanho enquanto uma música soava, sempre a mesma, e tudo aquilo crescia e crescia até me fazer recuar para o último recanto onde finalmente despertava, aflito, sufocado, coberto de suor, no tenebroso silêncio da noite.”

Noutro episódio Saramago recorda alguns episódios de pesca. No rio perto da casa dos avós ou um pouco mais longe, no Tejo. Descreve o que para si é o silêncio mais profundo:

“Voltei ao sítio, já o Sol se pusera, lancei o anzol e esperei. Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água. Senti-o naquela hora e nunca mais o esqueci.”

Este episódio relatado em “As pequenas memórias” foi transformado num livro infanto-juvenil com o nome “O silêncio da água”, ilustrado por Manuel Estrada e publicado pela Editorial Caminho em 2011.

 Miriella de Vocht

O texto acima publicado foi o meu contributo para o serão dos Amigos de Ler de fevereiro, que teve como tema a palavra SILÊNCIO.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Amigos de ler - Fevereiro


“E de súbito desaba o silêncio
É um silêncio sem ti.
Sem álamos sem luas
Só nas minhas mãos
Ouço a música das tuas
“É o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar” (Eugénio de Andrade)

O próximo serão dos AMIGOS DE LER realiza-se no dia 8 de fevereiro, pelas 21h00, e vai ter como tema a palavra “SILÊNCIO”.

Quem quiser participar pode fazer a sua inscrição até 8 de Fevereiro às 16.00 horas para bib-arganil@cm-arganil.pt

Boas leituras!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

"Se numa noite de inverno um viajante" de Italo Calvino



CALVINO, Italo - Se numa noite de inverno um viajante.
Porto : Publico, 2002.
ISBN 84-8130-508-1

"Se numa noite de inverno um viajante" de Italo Calvino foi uma das obras apresentadas na sessão dos amigos de ler em Janeiro, que teve como tema "labirinto". Fica o convite à sua leitura!

Este livro é na verdade um verdadeiro labirinto, embora a palavra não esteja explicita em nenhuma das suas página, onde se fala de livros, de leitores, de escritores, de bibliotecas e livrarias.

A busca das palavras adequadas para exprimir o que o escritor pretende dizer é um verdadeiro quebra cabeças, muitas vezes inglório pois terá de se submeter à interpretação que o leitor faz das palavras escolhidas pelo escritor.

A luta do escritor para separar o que é imaginado do que é a realidade funde-se nas palavras que escolhe para construir o texto, que depois, quando é lido, transmite esse labirinto de palavras conduzindo o leitor à mesma luta existencial de misturar a realidade que vive, com a sua capacidade imaginativa, juntando ainda os conhecimentos que a sua biblioteca interior lhe transmite através dos livros que já leu.

Nos corredores labirínticos das bibliotecas, os livros aguardam a escolha do leitor. Contudo o leitor tem dentro de si o seu próprio labirinto que o leva a percorrer esses corredores de estantes onde os livros esperam a sua decisão, como tão bem o autor nos dá a conhecer nas páginas deste livro.

Gostaria de deixar aqui um pequeno excerto do livro, devo no entanto confessar que não foi fácil fazer a escolha. Depois de muito ponderar escolhi esta passagem que me parece bastante significativa.

«Eu também sinto a necessidade de reler os livros que já li, diz um terceiro leitor, mas em cada releitura parece-me ler pela primeira vez um livro novo. Serei eu que continuo a mudar e vejo coisas novas que antes não tinha notado? Ou a leitura é uma construção que ganha forma juntando um grande número de variáveis e não se pode repetir duas vezes de acordo com o mesmo desenho? Sempre que tento reviver a emoção de uma leitura anterior, obtenho impressões diferentes e inesperadas, e não reencontro as anteriores»

Na verdade, o livro “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante” de Italo Calvino é um labirinto de ideias à volta do que é o Livro, a Leitura e o Leitor e como estas três palavras e os seus significados influenciam o Escritor, que é também Leitor.

Margarida Fróis

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

Leia, porque ler é um prazer!

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Amigos de Ler em Outubro

Em Outubro os Amigos de Ler voltaram finalmente a reunir na Biblioteca. A pretexto do tema escolhido para o serão, casa, partilhamos o poema "Nossas Casas" da autoria de Fátima Cruz. De forma simples resume as várias intervenções da noite.


Nossas Casas 

Nossas casas são paredes, 
são segredos, 
são lembranças. 
Nossas casas são as plantas, 
quadros, fatos, vozes, ninhos 
família, espaço, vizinhos. 
Guardam cheiros, sentimentos, 
lágrimas, risos, lamentos, 
sonhos, imagens, pensamentos. 
Algumas possuem vida, 
como se fossem pessoas, 
tem apego, tem sossego, 
tem laço, raiz, perdão, 
corpo, alma e coração. 
Tem tijolo e tem cimento, 
paredes erguidas no tempo 
Servem para proteger? 
Pode ser, 
Pode não ser... 
Servem para abrigar 
não só gente, 
mas histórias de alegrias e tristezas, 
de chegadas e partidas, 
de fracassos e conquistas. 
Quanto vale a nossa casa, 
Espelho de nossa alma? 
Vale a história de nossas vidas. 

Fátima Cruz

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

A música e a literatura por Maria Leonarda Tavares

A música e a literatura 

São duas artes distintas, mas intimamente ligadas. 

A literatura trabalha a palavra e a música imprime-lhe ritmo e sonoridade. 

Ambas têm particularidades muito específicas, mas possuem uma relação vital nas suas expressões artístico-culturais. 

Não é por acaso que uma sonata de Beethoven inspirou um livro de Tolstói. A sonata de Kreutzer que é também o título do livro. 

É uma obra de apenas 87 páginas. Um romance qua aborda a temática do casamento, as relações entre homens e mulheres, o machismo do séc. XIX na Rússia e no resto do mundo. Apresenta também a sua visão sobre o cristianismo, o ideal cristão e a igreja. 

Através das personagens descreve o efeito que a música teve sobre ele, a forma como fez aflorar as emoções e o transportou para um estado de alma que o levou à criação de uma obra literária de grande beleza. 

Um romance apaixonante nascido de uma sonata de Beethoven. 

Em 1910 o livro inspirou, por sua vez, o pintor René Prinet numa pintura igualmente com o mesmo nome. 

Esta ligação música/literatura ganhou força com a atribuição do Prémio Nobel da literatura a Bob Dylan, em 2016. 

Mereceu a distinção pela relevância do seu trabalho como cantor e compositor e por ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição norte-americana da música. 

Escreveu letras e compôs melodias inesquecíveis carregadas de mensagens. 

Já tinha recebido vários prémios de destaque. Este confirmou todos os outros e gerou alguma polémica sobre a relação literatura/música. 

Sem menosprezar a importância de outras manifestações culturais como, por exemplo, e escultura e a pintura, é indiscutível que a humanidade sempre atribuiu uma enorme relevância à literatura e à música. 

Os grandes compositores, maestros e escritores legaram, ao longo de séculos, uma fonte inimaginável de sabedoria, de deleite espiritual, retratando uma enorme diversidade de áreas do conhecimento. 

Influenciaram, decisivamente, o crescimento cultural do ser humano: o melhor incentivo para o progresso em todas as suas vertentes. 

Tanto a música como a literatura contribuem para uma fraternidade universal, uma comunhão pacífica dos povos. 

Fomentam uma educação inclusiva, profunda e abrangente. São veículos de uma democratização do saber. 

Uma e outra proporcionam uma constante aprendizagem que exige seriedade e compromisso. 

A mais-valia deste processo de aprendizagem consiste no caminho que se percorre ao longo da vida. 

Não se busca um produto final, o prazer está no percurso e na procura de um crescimento espiritual que seja o reflexo do nosso humilde contributo para uma sociedade melhor. 

Maria Leonarda Tavares

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Amigos de ler em Setembro


O próximo serão dos AMIGOS DE LER realiza-se no dia 14 de Setembro, pelas 21h00 na Biblioteca Municipal de Arganil e vai ter como tema a palavra “Música”.


Assim e como forma de aguçar o "apetite" literário partilhamos um lindo poema da autoria de Charles Baudelaire, do livro "As Flores do Mal", em que a música é o elemento principal.

A Música

A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

Boas leituras e até breve!