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terça-feira, 10 de dezembro de 2024

O Natal do Sr. Scrooge de Charles Dickens

Mem Martins : Europa-América, [19-?]. 166, [2] p.

O Natal do Sr. Scrooge é um conto da autoria de Charles Dickens sobre o velho, frio, miserável e avarento Ebenezer Scrooge e a sua conversão secular e redenção após ter sido visitado por quatro espíritos na noite de Natal.

A história foi publicada pela primeira vez em 1843 e rapidamente obteve sucesso comercial, bem como a aclamação crítica.


O conto inicia-se na noite de Natal, 7 anos após a morte do sócio de Ebenezer Scrooge, Jacob Marley. Nessa noite, Scrooge recebe a visita do espírito de Marley que o avisa que o seu espírito jamais terá paz se ele não modificar a sua atitude gananciosa e avarenta. Marley avisa também que Scrooge receberá a visita de mais espíritos.

De acordo com a profecia de Marley, Scrooge recebe nessa noite a visita de 3 espíritos: o espírito dos Natais passados, o espírito do Natal presente e o espírito dos Natais futuros, cada um deles leva Scrooge a cenários diferentes e após a sua visita Scrooge será um homem completamente diferente, transformando-se num homem bondoso e generoso, capaz de sentir o verdadeiro espírito natalício.

Esta é uma história que merece ser lida. É uma lição para todos nós nesta quadra natalícia.

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil

Leia, porque ler é um prazer!

terça-feira, 26 de julho de 2022

Sugestão de leitura: "Três contos" de Umberto Eco

Lisboa: Gradiva, 2021
ISBN 978-989-785-066-0

Este livro reúne três contos clássicos do autor que é considerado um dos maiores intelectuais da actualidade: Umberto Eco. A guerra é posta no banco dos réus nestes três contos alegóricos, em que, por meio de linguagem adequada ao público adolescente, o autor, apoiado por belíssimas ilustrações do abstracionista Eugenio Carmi, faz reflectir sobre a necessidade da tolerância na solução de conflitos e de se legar a todos e às gerações futuras um planeta preservado e sustentável. As consequências do ódio nas relações sociais e do consumo desenfreado são questionadas por Umberto Eco com lirismo, mas também ironia e até sarcasmo.

Fonte: wook

"A bomba e o general"

Os átomos fechados dentro de uma bomba nuclear revoltam-se contra o general que pretende desencadear uma guerra com o arsenal escondido no sótão.

"Os três cosmonautas"

Três cosmonautas em competição uns com os outros - um americano, um russo e um chinês - chegam a Marte, onde encontram um marciano com seis mãos que os porá de acordo.

"Os gnomos de Gnu"

Um imperador pretensioso envia um explorador para que leve a civilização a um pequeno planeta inocente e feliz.

Fonte: contracapa do livro

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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segunda-feira, 18 de julho de 2022

Novidade na Biblioteca: "Pura anarquia" de Woody Allen

Lisboa: Gradiva, 2007

Pura Anarquia transmite-nos a perspectiva pessoal de Woody Allen sobre temas que vão de amas delatoras («Querida ama») a roupas que cheiram a carne de porco cozinhada duas vezes («Sam, fizeste as calças demasiado bem-cheirosas»), passando por campos de férias de cinema («Calistenia, hera venenosa, montagem final») ou uma visão desapaixonada acerca de uma senhora muito atraente e uma trufa valiosíssima («Que letal se tornou o seu sabor, minha doce amiga»). E ainda fornece uma cunha que se adapta perfeitamente à perna de uma mesa coxa.


Pura Anarquia é clássico Woody Allen - perspicaz, espirituoso, inteligente e irresistível. Com esta colecção de dezoito contos inimitáveis, oito dos quais inéditos e dez publicados originalmente na revista New Yorker, Woody Allen, imaginativo e inventivo como nunca nem ninguém, volta a surpreender-nos.

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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quarta-feira, 9 de março de 2022

Revista literária «PALAVRAR – Ler e escrever é resistir»




A revista literária «PALAVRAR – Ler e escrever é resistir» apresenta textos de autores ainda desconhecidos, a par de vozes conhecidas no panorama literário nacional e da Lusofonia e um dos pilares é a procura da união entre lusofonias e portugalidades.

Caracterizada pela diversidade de rubricas e assuntos, a revista partilha crónicas, contos, histórias infantis, poesia de autores desconhecidos, a par de crónicas ou artigos de opinião de vozes conhecidas no panorama literário nacional. Inclui ainda o questionário de Proust a um convidado especial por edição.

É uma revista literária digital, de periodicidade semestral e com distribuição gratuita. O primeiro número foi publicado em Agosto de 2021 e o segundo número em janeiro de 2022, sob o tema "O sonho comanda a vida".

Siga os links, leia e  partilhe a revista Palavrar!

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

Recordando Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges nasceu a 24 de Agosto de 1899 em Buenos Aires, Argentina. 

Cresceu no bairro de Palermo, «num jardim, por detrás de uma grade com lanças, e numa biblioteca de ilimitados livros ingleses». Em 1914 viajou com a família pela Europa, acabando por se instalar em Bruxelas, e posteriormente em Maiorca, Sevilha e Madrid. Regressado a Buenos Aires, em 1921, Borges começou a participar activamente na vida cultural argentina. 

Em 1923, publicou o seu primeiro livro – Fervor de Buenos Aires –, mas o reconhecimento internacional só chegou em 1961, com o Prémio Formentor, seguido por inúmeros outros. 

A par da poesia, Borges escreveu ficção, crítica e ensaio, géneros que praticou com grande originalidade e lucidez. 

A sua obra é como o labirinto de uma enorme biblioteca, uma construção fantástica e metafísica que cruza todos os saberes e os grandes temas universais: o tempo, «eu e o outro», Deus, o infinito, o sonho, as literaturas perdidas, a eternidade – e os autores que deixam a sua marca. Jorge Luis Borges ficou conhecido como o escritor argentino do mundo.

Foi professor de literatura e dirigiu a Biblioteca Nacional de Buenos Aires entre 1955 e 1973. 

Morreu em Genebra, em Junho de 1986.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Sugestão de leitura: A estrela de Vergílio Ferreira

A estrela in Apenas Homens de Vergílio Ferreira

Em "A Estrela" de Vergílio Ferreira, narra-se a história simples e cativante de Pedro, uma criança de 7 anos que, um dia à meia-noite, sobe ao alto de uma igreja, existente no cimo de uma alta montanha, para roubar uma estrela ímpar.

Não era uma estrela qualquer, era simplesmente a estrela mais bonita e brilhante do céu. Porém, o roubo é descoberto por um velho muito velho, e toda a aldeia se revolta contra aquele acto que assim defraudara o património comum. Quando descobre a verdade, o pai de Pedro exige que ele reponha a estrela roubada no seu lugar originário. Porém, ao restituir a estrela, noutro dia à meia-noite, perante toda a comunidade emocionada, Pedro cai da torre da igreja e morre. Aquela estrela singular e o acto de Pedro perduraram na memória de todos até ao presente.

Um conto que espelha claramente os contrastes do imaginário infantil, com o dos adultos.

Gostou?

Requisite o livro na Biblioteca Municipal de Arganil e descubra este e outros contos da autoria de Vergílio Ferreira, nome maior da literatura portuguesa.

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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Adeus a Luís Sepúlveda (1949-2020)

O escritor Luis Sepúlveda morreu esta quinta-feira, dia 16 de Abril, no Hospital Universitário Central de Astúrias, Oviedo, Espanha, aos 70 anos de idade, vitimado pela doença covid-19. 

Entre os contos juvenis, com que inaugurou a sua pena, em 1969, à obra de referência O Velho Que Lia Romances de Amor passaram 20 anos. As Rosas de Atacama e História de Uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar são outros dos marcos da carreira literária de Sepúlveda. O seu mais recente livro, O fim da história, foi publicado em 2016.

Além do percurso como escritor, Sepúlveda foi activista ambiental, e envolveu-se em causas políticas. O escritor chileno abandonou o seu país de origem em 1977, durante a ditadura de Pinochet. Esteve ligado a vários movimentos de inspiração comunista e socialista. tendo-se mesmo alistado nas fileiras sandinistas no final dos anos 70, em concreto na Brigada Internacional Simon Bolívar. 

Como escritor, arrecadou o Prémio Casa das Américas, os prémios Gabriela Mistral/Poesia, em 1976, Rómulo Galegos/Novela, em 1978, Tigre Juan/Novela em 1988, o de Contos "La Felguera", em 1990, e o Prémio Primavera/Romance, em 2009. Em 2016, recebeu o Prémio Eduardo Lourenço. 

Como forma de homenagear Luís Sepúlveda aproveitamos para destacar os livros da sua autoria disponíveis na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.
A sombra do que fomos
Porto: Porto Editora, 2009
O velho que lia romances de Amor
Porto: ASA, 2000
Patagónia Express
Porto. ASA, 1999
Encontro de amor num país em guerra
Porto: ASA, 1998
História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar
Porto: ASA, 2000
Diário de um killer sentimental
Porto: ASA, 1999
História de um caracol que descobriu a importância da Lentidão
Porto: Porto Editora, 2014
História de um cão chamado Leal
Porto: Porto editora, 2016
A venturosa história do usbeque mudoPorto: Porto Editora, 2015

Mundo do fim do mundo
Porto: Porto Editora, 2016
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

O verdadeiro Natal por Graça Moniz

O verdadeiro Natal 

A época de Natal aproximava-se a passos largos. A azáfama já se fazia sentir em cada um dos habitantes daquela casa. 

Fizeram a Árvore de Natal no inicio do mês de Novembro. Colocaram bolas das mais variadas cores, fitas reluzentes e luzes que piscavam incessantemente . 

Tanto os pais, como os três filhos mais velhos, ninguém tinha, em si interiorizado o verdadeiro espírito e significado do NATAL. 

Os fins-de-semana eram ansiosamente esperados para que a família fosse em correria louca enfiar-se dentro do Centro Comercial da cidade mais próxima, percorrendo tudo quanto é loja, alimentando o seu espírito altamente consumista e escolhendo quais as prendas que queriam receber. 

A dada altura, era possível ouvi-los comentar entre si: 

“ - já escolhi a minha prenda. Já tenho tudo aquilo que queria. Agora é só colocar os embrulhos junto da árvore e já está”. 

Para um, era um tablete de última geração, para outro, eram uns ténis da marca mais em voga no momento, para outro era um telemóvel topo de gama…enfim , cada um era superior ao outro… 

Mas, o mais novo nunca escolhia nada, dizia sempre que para ele o importante era a surpresa. 

No último fim-de-semana, antes do Natal, andavam eles todos numa agitação indescritível quando alguém lhes bate à porta. 

O mais novo da casa correu a ver quem era e ao deparar-se com uma figura masculina, de porte altivo e desconhecido, deu três passos atrás e gritou pela mãe. 

Esta veio de imediato e ao ver o homem perguntou: - o que deseja da nossa casa? 

Sem demoras o homem respondeu que apenas batera para saber como seria ali o Natal, pois andava a realizar um inquérito ao serviço do Ministério do Amor. 

- Ministério do Amor! – exclamou a mãe. Nunca tal coisa ouvi falar! 

- Pois, acredito que não! Hoje, pais e filhos, na sua grande maioria, só conhecem o Ministério do Comércio. Esse que lhes esgota os bolsos, as contas bancárias e que apenas dá como troco uma imensa torre de papéis de embrulho, fitas, laços e muitas vezes objetos que são responsáveis pela degradação da vida em família. – afirmou o homem. 

A senhora, um pouco perplexa com aquela atitude do homem, mas ciente de que ele até tinha alguma razão naquilo que afirmava, chamou o marido e este convidou o visitante a entrar para que tranquilamente conversassem . 

A conversa decorreu junto à lareira da casa onde crepitavam uns troncos de uma árvore que havia sido parcialmente destruída pelos incêndios do verão anterior. 

O homem, olhava atentamente aquela mescla de cor emanada pelas chamas e simultaneamente procurava ver onde estava o Presépio da casa. Como não vislumbrasse Presépio algum, ousou perguntar: 

- Na vossa casa só se faz a árvore e não se faz Presépio? 

Apressadamente, os miúdos responderam em coro: “Para que queremos nós o Presépio? O Importante são os nossos presentes (que já sabemos quais são) e a árvore para os colocar lá debaixo” 

Os pais não ousaram dizer palavra, eles sabiam que eram os grandes responsáveis pela atitude dos filhos. 

Naquela casa fez-se um silêncio profundo que só foi quebrado pela intervenção do filho mais novo, que falou assim para o visitante: 

- eu sou o mais novo e sou aquele que não escolho prenda. Sou o único que pergunto à mãe a razão de não termos um Presépio como o da casa dos avós, mas a resposta é sempre a mesma, “isso já não se usa, meu filho”. 

O homem, olhando fixamente aquela criança, sentiu deslizar-lhe no rosto, uma lágrima que lhe parecia quente e fria em simultâneo. Fria, como o espírito de Natal daquela família e quente, como o coração daquele pequenino a quem não prestavam atenção. E ao mesmo tempo que a lágrima deslizava, ele sorrateiramente abandonava aquela casa . 

Naquele instante, como que por magia, ouviu-se um barulho que parecia descer do teto para o chão… todos olharam em redor, e, eis senão quando bem junto à lareira o Mais Belo Presépio apareceu, ao pé dele seis pequenos embrulhos (sem laços, nem fitas, mas cheios de amor e carinho). 

Os pais e os filhos mais velhos não sabiam o que dizer, mas o mais novo, não cabia em si de tanta felicidade e agarrando-se à mãe exclamou: 

- Afinal, sempre se usa o verdadeiro Natal! 

Graça Moniz (Natal de 2019)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Um Natal dos anos 40

Em Dezembro o grupo "Amigos de Ler" da Biblioteca Municipal de Arganil reuniu-se para falar sobre o Natal.

Em redor de uma mesa decorada com motivos natalícios e com muitos livros à mistura a partilha de contos, histórias, poemas, prendas e mensagens não faltou. E o encontro traduziu-se como sempre num agradável serão.

Partilhamos aqui um belo conto com que a prof. Maria Olívia Nogueira brindou os Amigos de Ler. Um conto que relata uma noite de Natal nos anos 40 do século XX. Um Natal cheio de vida, alegria, calor e amor.


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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Centenário do Nascimento de Jorge de Sena (1919-1978)


Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919.

De família com tradição da Marinha, e pai comandante da Marinha Mercante, o mar parecia ser o seu destino. Foi cadete ainda jovem, viajando na Sagres até ao Brasil e depois para África. Começa a escrever poesia aos 16 anos. Após frequentar a Universidade de Lisboa, faz o curso de Engenharia, no Porto, integrando-se na então chamada Junta Autónoma das Estradas. 

A sua estreia literária remonta a 1939, com a publicação do poema “Nevoeiro”, e do ensaio “Em pról da poesia chamada moderna”, ambos sob o pseudónimo de Teles de Abreu. 

O primeiro conto, "Porto Grande", é publicado em 1942, ano em que publica também o seu primeiro livro de poemas, Perseguição, iniciando a sua colaboração nos Cadernos de Poesia, 2ª. Época, além de outras revistas literárias, como Aventura, na qual publica um ensaio sobre Artur Rimbaud. Colabora em várias revistas nos anos 40 e 50, e trabalha também para editoras como Portugália, Ulisseia e Livros do Brasil. Foi professor nas Faculdades de Letras de Assis e de Araraquara, no Brasil (entre 1959 e 1965), e depois nos Estados Unidos, em Madison, no Wisconsin (1965-1970) e na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara (1970-1978), cidade onde faleceu a 4 de junho de 1978. 

A sua obra além da poesia, abarca o conto (Andanças do demónio e Novas andanças do demónio, Os grão-capitães), o romance (Sinais de fogo), o teatro (O Indesejado, Mater imperialis, Amparo de mãe, etc.), e a tradução de obras de ficção. Tem também vasta obra no domínio do ensaio e da crítica literária, cinematográfica e teatral. 

“Raramente se terão harmonizado, numa mesma personalidade, o poeta, o dramaturgo, o ficcionista, o crítico, o ensaísta, o erudito, o investigador, o historiador da cultura, o professor, o engenheiro, o cidadão do mundo… Jorge de Sena, sendo tudo isto, e em tudo o poeta que sempre se disse, foi mais do que Jorge de Sena” 
Jorge Fazenda Lourenço in O essencial sobre Jorge de Sena
Consulte o catálogo da Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil para saber que livros temos de e sobre Jorge de Sena, disponíveis para si!

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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Novidade na Biblioteca: No meio do nada de António Mota

A cumprir 40 anos de carreira, António Mota estreia-se na narrativa para adultos: No Meio do Nada, reúne contos sobre afectos, solidão, velhice, memórias calibradas pela realidade.

Como num palco, e com a unidade temática de um romance, as múltiplas personagens de No Meio do Nada, falam do que as desassossega. 

Monólogos sobre a busca da felicidade, a solidão, a passagem do tempo, os sonhos e as desilusões, as súbitas mudanças, o envelhecimento, o medo, o espanto, as novas moradas, o deslaçar dos afectos, o amor e a crueldade. 

Histórias francas e ousadas, que nos interpelam, onde nos reconhecemos e, por vezes, nos encontramos.

Leia aqui as primeiras páginas. 

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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Ouro, incenso e mirra

O ouro, o incenso e a mirra estiveram sempre associados aos magos. 
Nada se sabe ao certo sobre eles. São Mateus é o único evangelista que aborda o acontecimento, intitulando-o: Adoração dos Magos. 
“Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, chegaram a Jerusalém uns magos, vindos do oriente. Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? – perguntavam. 
Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.” 
Quando chegaram ao lugar onde estava o Menino a estrela parou. Sentiram uma enorme alegria. Entraram. Prostraram-se em adoração. Abriram os cofres e ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. 
Os magos trouxeram os melhores produtos do oriente. Cada um simbolizando os atributos do Messias: ouro, como rei; incenso, como Deus; e mirra, como homem mortal. 
Supostamente os magos eram sábios do oriente, talvez reis da Arábia ou Pérsia, que se dedicavam principalmente à astronomia. 
São Mateus nunca menciona o número. Porquê três? De onde vêm os nomes Belchior, Baltasar e Gaspar?’ 
Verdade ou imaginação eles tornaram-se uma lenda e fazem parte do nosso presépio. 
Os magos, tal como são apresentados, inspiram e desafiam a nossa capacidade aventureira. 
Se Jesus ou outro salvador voltasse a nascer num pedaço de chão do planeta, acredito que seria numa zona de pobreza, talvez em África. 
Por vezes, dou comigo a pensar que nos dava muito jeito que um todo-poderoso, resolvesse ajudar a por ordem na desordem instalada. A começar pelo problema do aquecimento global. 
Mas como quase ninguém quer abdicar de nada, nem de um saco de plástico, Ele nem saía do presépio, era crucificado de fraldas. 
Porém, se me é permitido ser otimista e sonhar, gostaria de fazer parte da caravana que seguia a estrela e trilhar caminhos de esperança. 
Qualquer direção servia. Ao luar ao sol ou à chuva, o importante era participar, partilhar a experiência, acreditar em algo ou alguém muito especial. 
Contudo, cruzar-nos-íamos com multidões famintas, fugitivos de guerra e de miséria. O sonho desvanecer-se-ia. 
Questionar-nos-íamos, vale a pena? O que procuramos, afinal? 
Os conflitos de que também somos feitos confundir-nos-iam. 
Qual seria a opção? O ouro, o incenso ou a mirra? 
Um caminho longo e penoso é um convite ao desalento. 
Porém, há sempre algo dentro de nós a envolver-nos na procura do outro, no desejo de dar a mão, partilhar afetos e voar abraçados. 

Feliz Natal! 

Maria Leonarda Tavares

Texto escrito por Maria Leonarda Tavares para o Encontro dos Amigos de Ler, realizado na Biblioteca Municipal de Arganil no dia 10 de Dezembro de 2018.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Os pezinhos do Menino Jesus

Na aldeia de Cadafaz, na serra de Góis, o frio era intenso, porque se aproximava o Natal. “Ande o frio por onde andar, pelo Natal há de chegar” diziam os mais velhos, e era bem verdade! As casas escuras, cobertas com xisto negro, aconchegavam-se umas às outras à beira de ruas tão estreitas, que nelas mal cabiam os carros de bois. No empedrado, trotavam os cascos das ovelhas, apressadas para os pastos, ou de regresso ao curral. 

Luita e Sanel viviam na aldeia e frequentavam a 1ª classe da pequena escola, ensinados pela D. Arminda, a professora primária. Era também a D. Arminda que ministrava a catequese aos meninos e lhes falava do Menino Jesus, filho de Deus Pai, que nascera numa gruta em Belém, na noite de 24 para 25 de dezembro, havia já naquela altura 1957 anos! Luita e Sanel sabiam quem era o Menino Jesus, porque em todos os Natais recebiam uma prendinha no sapatinho, que colocavam junto à lareira. As prendas que cada um recebia eram diferentes: Luita recebia meias, casacos e camisolas, que eram coisas que ele muito precisava, porque a família era mais pobre do que a de Sanel. Este recebia chocolates, doces e brinquedos, porque não precisava tanto das outras coisas que Luita recebia. Mas como eram amigos, Sanel partilhava com Luita as coisas doces que recebia e era assim que devia ser, dizia a mãe de Sanel. Isso agradava ao Menino Jesus. 

- Mãe, porque é que temos de pôr o sapatinho ao pé da lareira e não ao pé da porta? - Perguntava Luita à mãe, olhando-a com os seus grandes olhos castanhos. 

- Porque o Menino Jesus desce pela chaminé - respondia a mãe - o Menino Jesus é muito amigo dos meninos que se portam bem, mas não gosta de se mostrar. Por isso, ele desce de noite, quando eles estão a dormir, coloca a prenda no sapatinho e volta a subir. 

- Mas eu queria tanto, ver o Menino Jesus! – Choramingava o menino, e em cada ano que passava, mais crescia dento de si a vontade de O ver. Estava para chegar mais um Natal e neste, é que havia de ser! Luita não ansiava pelas prendas, nem pelas guloseimas que Sanel lhe haveria de dar. Isso ele tinha garantido, porque nem que fosse apenas um saco de filhós, ele sabia que receberia qualquer coisa. Mas ver o menino Jesus, era o presente mais ansiado. 

Nessa noite, esperou que todos dormissem e levantou-se devagarinho, indo sentar-se junto à lareira, mas a espera prolongada fê-lo adormecer. Acordou estremunhado, com a mãe a abaná-lo e então correu para a chaminé e espreitou. Ficou um bocadinho com a cabeça enfiada no buraco e depois voltou para dentro da pequena cozinha, com um sorriso resplandecente e exclamou, com as mãos postas como quem está a rezar, tremendo de emoção: 

- Ai mãe, que eu ainda Lhe vi os pezinhos! 


Eulália Gameiro

terça-feira, 3 de julho de 2018

Sugestão de leitura: O que não é teu não é teu de Helen Oyeyemi

A chave para uma casa, a chave para um coração, a chave para um segredo - chaves, literais e metafóricas, que não se limitam a abrir momentos das vidas das suas personagens; estas chaves prometem-nos também os difíceis labirintos que se estendem para lá disso.

Os contos de Helen Oyeyemi, lembrando contos de fadas, lições de história, mitos e lendas, vivem numa multiplicidade de tempos e paisagens, fazendo com as que as fronteiras de realidades coexistentes se toquem, transformando ladras em heroínas, homens moribundos em pais, e criando bibliotecas de rosas e jardins de livros.

Em O Que não É Teu não É teu, todas as chaves são portas, oferendas e um convite à descoberta de um universo onde a beleza poderá, talvez, existir.

Fonte: contracapa do livro


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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Novidade na Biblioteca: Manual para mulheres de limpeza de Lucia Berlin

Manual para mulheres de limpeza reúne o melhor da obra da lendária escritora norte-americana Lucia Berlin, comparada a escritores como Raymond Carver, Richard Yates, Marcel Proust e Tchékhov. Com um estilo muito próprio, Lucia Berlin faz eco da sua própria experiência - tão rica quanto turbulenta - e cria verdadeiros milagres a partir da vida de todos os dias.
As suas histórias são pedaços de vida convulsas. Histórias de mulheres como ela, que riem, choram, amam, bebem, vivem e sobrevivem. Histórias de mães e filhas, casamentos fracassados e gravidezes precoces. Histórias de emigração, riqueza e pobreza, solidão, amor e violência. Seja em salões de cabeleireiro, lavandarias, consultórios de dentistas ou colégios de freiras, nestas páginas acontece o inesperado. Testemunham-se os pequenos milagres e tragédias da vida, que Lucia Berlin trata por vezes com humor, por vezes com melancolia, mas sempre com comovente empatia e extraordinária vivacidade, como se as personagens e os lugares - extraordinariamente reais - saltassem da página.

Fonte: contracapa do livro

"Os contos de Lucia Berlin são eléctricos, zumbem e crepitam quando os fios descarnados se tocam. E, em reacção a isso, também a mente do leitor, cativada, arrebatada, ganha vida, com todas as sinapses a disparar. É assim que gostamos de estar quando lemos - a usar o cérebro, a sentir os batimentos cardíacos.
Parte da vivacidade da prosa de Lucia Berlin está no ritmo - por vezes fluido e calmo, equilibrado, errante e solto; e, por vezes, em staccato, notacional, acelerado. (...)"

Excerto do prefácio de Lydia Davis


Para saber mais sobre a escritora e a sua obra consulte:

"Manual para mulheres de limpeza", de Lucia Berlin, vence prémios em Espanha e nos EUA - Lusa
Onde é que tu andavas, Lucia Berlin? - Ágata Xavier - Revista Sábado Lucia Berlin. A história das coisas que aconteceram - Jornal Sol

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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quinta-feira, 2 de março de 2017

Livro do mês: Esgares e sorrisos de Leonor Duarte de Almeida

Esgares e sorrisos é o primeiro livro de ficção de Leonor Duarte de Almeida e foi publicado em 2002. É uma colectânea de trinta histórias curtas “com uma escrita ao serviço directo da gente de todos os dias, captada em registo fotográfico sem preparação, encenação, trabalho de casa psicológico ou cábula.”

“Leonor Duarte de Almeida encontra-se à vontade no uso de uma linguagem abrangente ao descrever situações tão díspares como recordações de um continente africano em luta e dolorosa reorganização social; os emigrantes portugueses dos anos sessenta que não sabem já que língua falam com os filhos, que por lá têm, quando revisitam a velha “maison” da sua aldeia; a guerra colonial protagonizada pelos mesmos jovens das lutas académicas nas universidades em que a polícia e os cães violentam corpos e almas dos estudantes, cenas que alguns dos quais, com a irreverência de sempre, conseguem fotografar das varandas do Hospital Universitário de Lisboa; o humor fino, transparente, patente na descrição de uma relação quase fraternal de um filho com a mãe que lhe conhece o pendor homossexual mas que a ambos pode aproveitar dado os contactos do jovem com um senhor rico…”

Excerto do prefácio de Fernando Miguel Bernardes

Com Esgares e sorrisos, Leonor Duarte de Almeida, foi reconhecida pela crítica, recebendo o Prémio Revelação da SOPEAM e o Prémio de Novos Autores Portugueses do IPLB em 2002.
Nota biográfica: Leonor Duarte de Almeida é médica oftalmologista no Hospital de Santa Maria, em Lisboa - cidade onde nasceu - Mestre em Bioética pela Faculdade de Medicina de Lisboa e Doutoranda em Bioética na Universidade Católica Portuguesa.

A escrita é uma paixão de «toda a vida» mas apenas começou a ser partilhada com os leitores em 2002. Desde então, já publicou quatro livros de ficção (Esgares e sorrisos, Só me falta ser viúva, Gaivotas em fim de verão, O sapato preto) e um ensaio sobre Bioética, em 2008.

É membro da Associação Portuguesa de Escritores, desde 2002, e faz parte da actual Direcção da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos, eleita em 2010.Tem participado de forma activa nas acções da UMEAL (União de Médicos Escritores e Artistas Lusófonos).

Livro disponível para empréstimo na Biblioteca Municipal de Arganil.

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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Novidade na Biblioteca: Desnorte de Inês Pedrosa

Uma rapariga procura a própria voz.
Um homem percorre as curvas do tempo até à pré-história do amor.
Um pai cria um mar de livros para que a filha volte para ele. 
Uma família marca encontro com os seus mortos.
Uma amizade de juventude que partiu pelo mundo vem visitar quem ficou.
Uma mulher aprisionada pelo desejo de ser águia.
Um casal de jovens encontra-se para se despedir da vida.
Uma obsessão erótica.
Uma investigação policial que esconde uma paixão trágica.
Um encontro literário carregado de romances interrompidos.
Um escritor falhado revisita a sua ambição. 
O maior cantor de todos os tempos aguarda numa nuvem a chegada da maior fadista de sempre.
Um avião em que viajam célebres personagens literárias sofre um ataque terrorista.
Um homem regressa à sua ilha e descobre o mistério da infância.
Desnorte é isto: história a história, a escrita límpida e incisiva de Inês Pedrosa desvenda a luz e as sombras do nosso tempo.

Fonte: contracapa do livro

De acordo com Inês Pedrosa aquilo que une as histórias de “Desnorte” é um sentimento de “desnorteamento, de perder o pé, de perder a terra em situações muito distintas, umas familiares, outras sociais, outras mais íntimas, em relações ou de amor ou de amizade, mas é uma sensação da pessoa não saber ou quem é ou onde está”.

Com ilustração de Gilson Lopes, “Desnorte” procura juntar a arte da escrita e a arte do desenho, numa confrontação entre a “dor” e a “ironia”.


Livro disponível para empréstimo na Biblioteca Municipal de Arganil

Leia, porque ler é um prazer!

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Quando os gatos são os protagonistas

As melhores histórias de gatos é uma antologia, que reúne 22 contos, em que, como o título indica, os gatos são protagonistas.
  • O paraíso dos gatos de Emile Zola
  • Lillian de Damon Runyon
  • A infância de miss Churt de F. R. Buckley
  • A gata gorda de Q. Patrick
  • A queda do Morning Glory Adolphus de Margaret Cambell
  • De como uma gata fez de Robinson Crusoe de Charles G. D. Roberts
  • A caça grossa de Ming de Patricia Highsmith
  • Os gatos da Srª Bond de James Herriot
  • O gato de Dick Baker de Mark Twain
  • A gata da minha vida de Derek Tangye
  • Kym de Joyce Stranger
  • Um sítio óptimo para a gata de Margaret Bonham
  • A bandeira azul de Kay Hill
  • A história de Webster de P. G. Woodhouse
  • Só complicações de Doreen Tovey
  • Heathcliff de Lloyd Alexander
  • O gato que andava sozinho de Rudyard Kippling
  • Um barco carregadinho de graça de Eleanor Mordaunt
  • Sobretudo gatos de Doris Lessing
  • A dinastia preta e a dinastia branca de Théophile Gautier
  • Aspirina, o gato de John Coleman Adams
  • A melhor das camas de Sylvia Townsend Warner
Deixamos lhe aqui o convite à leitura com um excerto do conto "O gato que andava sozinho" de Rudyard Kipling.

"Isto passou-se e aconteceu e deu-se e foi, ó minha Bem-Amada quando os animais domésticos ainda eram selvagens. O Cão era selvagem, o Cavalo era selvagem e a Vaca era selvagem, a Ovelha era selvagem e o Porco era selvagem – o mais selvagem possível – e todos eles andavam nas húmidas florestas selvagens cada qual com os da sua espécie; mas o mais selvagem de todos os animais selvagens era o Gato. O Gato andava sozinho e todos os lugares eram iguais para ele.
Claro que o Homem também era selvagem. Era terrivelmente selvagem. Só começou a ficar domesticado quando encontrou a Mulher e porque esta não gostava da maneira selvagem como ele vivia. A Mulher escolheu uma gruta seca e confortável em vez de um monte de folhas molhadas para dormir e no fundo da gruta fez uma fogueira agradável e pendurou à entrada uma pele seca de Cavalo Selvagem, com a cauda para baixo e disse: “Limpa os pés quando entrares para termos a casa em ordem.”
Nessa noite, Bem-Amada, comeram Carneiro Selvagem assado nas pedras quentes da lareira e temperado com alho e pimenta brava e Pato Selvagem recheado de arroz bravio e funcho silvestre e cominhos bravos e ossos de tutano de Boi Selvagem e cerejas bravas e groselhas silvestres. Depois o Homem foi dormir todo contente junto do fogo mas a Mulher ficou acordada, sentada, a matutar. Pegou no osso da omoplata do carneiro, o grande osso chato e largo, ficou a contemplar as maravilhosas marcas que o osso tinha, pôs mais lenha no fogo e fez uma magia. Fez a primeira Magia Cantante do mundo.
Lá fora, nas húmidas florestas selvagens, todos os animais selvagens se reuniram num ponto de onde conseguiam ver a luz do fogo ao longe e perguntavam a si próprios o que poderia ser aquilo.
Então o Cavalo Selvagem bateu com a pata no chão e disse:
- Ó meus amigos e meus inimigos, porque é que o Homem e a Mulher fizeram aquela grande luz naquela grande gruta e que mal nos poderá aquilo trazer?
O Cão Selvagem ergueu o focinho e farejou o cheiro da ovelha assada e disse:
- Vou erguer-me e caminhar, e ver e ficar lá: porque penso que é bom. Gato, vem comigo.
- Nérias – disse o Gato. – Eu sou o Gato que anda sozinho e todos os lugares são iguais para mim. Não vou.
- Então não voltaremos a ser amigos – disse o Cão Selvagem e partiu a trote em direcção à gruta.
Mas passado um bocado o Gato disse para com os seus botões:
- Todos os lugares são iguais para mim. Porque não hei-de eu também pôr-me a caminho e ver e vir-me embora?
E assim rastejou em silêncio atrás do Cão Selvagem e escondeu-se num sítio onde podia ouvir tudo.
Quando o Cão Selvagem chegou à entrada da gruta soergueu com o focinho a pele de cavalo seca, farejou o maravilhoso cheiro do carneiro assado e a Mulher ouviu-o, riu-se e disse:
- Aqui vem a primeira coisa selvagem saída da floresta selvagem. Que queres tu?
O Cão Selvagem disse:
- Ó minha inimiga e mulher do meu inimigo, que é isto que cheira tão bem na floresta selvagem?
Então a Mulher pegou num osso do carneiro assado, atirou-o ao Cão Selvagem e disse:
- Coisa selvagem vinda da floresta selvagem, prova e experimenta!
O Cão Selvagem roeu o osso e era mais delicioso que qualquer outra coisa que ele comera na vida; disse:
- Ó minha inimiga e mulher do meu inimigo, dá-me outro.
A Mulher disse:
- Coisa selvagem vinda da floresta selvagem, ajuda o meu Homem a caçar durante o dia e guarda esta gruta durante a noite e dou-te todos os ossos assados que quiseres.
- Ah! – disse o Gato que tinha ouvido tudo – esta Mulher é muito sensata mas não é tão sensata como eu.
O Cão Selvagem rastejou para dentro da gruta e pousou a cabeça no regaço da Mulher e disse:
- Ó minha amiga e mulher do meu amigo, eu ajudarei o teu Homem a caçar durante o dia e guardarei a tua gruta durante a noite.
- Ah! – disse o Gato que tinha ouvido tudo. – Aqui temos um Cão bem tolo.
E foi-se embora através da húmida floresta selvagem abanando o rabo, sozinho na sua independência selvagem. Mas nunca contou nada a ninguém.
Quando o Homem acordou, disse:
- Que está o Cão Selvagem a fazer aqui?
E a mulher disse:
- O nome dele já não é Cão Selvagem mas sim Primeiro Amigo porque será nosso amigo para todo o sempre. Leva-o contigo quando fores caçar. (…)

Leia, porque ler é um prazer!

Livro disponível para empréstimo na Biblioteca Municipal de Arganil.

segunda-feira, 30 de março de 2015

LAÇOS DE FAMÍLIA



de Clarice Lispector

ED. RELÓGIO D'ÁGUA

Encontramos neste livro de contos palavras com um centro secreto que se revelam na beleza da escrita que suplanta a desordem.  Tudo o que pela sua própria natureza é separado é também unido.

A segurança de corpos sadios.  O terror e o nojo que se apagam com uma chama.  O testemunho de uma fé suave, crepitante e grata.  Os valores da persistência, da continuidade, da alegria.  O dom de um caminhar que pede tréguas.

Ainda o que Clarice Lispector chama de "cruel necessidade de amar" e "malignidade do nosso desejo de ser feliz".

O que se encontra de amargura e cólera a desaparecer com as partidas.  A perturbação e piedade de uma estranha graça.  O desafio.  A acusação.  Assuntos de dinheiro.


Vidas de adulto e os fios partidos dessas vidas.  Tudo o que se desfaz e tem que se refazer.