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sexta-feira, 24 de abril de 2026

Fundo local: Amarga Mente, de Matilde Lourenço Martinho

[Carvalhosa] : Oficina da Escrita, 2026
ISBN 978-989-93332-23-2

Amarga Mente é a obra de estreia de Matilde Lourenço Martinho, uma jovem autora natural de Vila Cova de Alva, que descobriu na escrita uma forma profunda de expressão pessoal.

Mais do que um simples conjunto de poemas, este livro revela uma escrita intensa e autêntica, onde a autora se expõe sem reservas, recusando o conforto das máscaras e enfrentando, com coragem, o olhar e o julgamento alheio. Nos seus versos encontramos uma verdade crua e desarmante, que convida o leitor a ir além da superfície e a mergulhar nas emoções e inquietações que percorrem a obra.

Escrito num curto período de tempo, Amarga Mente nasce de um processo exigente e profundamente emocional. Como a própria autora refere, trata-se de uma travessia interior marcada por “espinhos e ansiedades, lágrimas e incertezas”, onde a escrita surge como forma de revelação do íntimo.

O livro apresenta ainda o sugestivo subtítulo — “das grandes perdas podem nascer grandes histórias” —, refletindo a capacidade de transformar experiências difíceis em criação literária. A capa, pensada como a “porta de entrada” para este universo, reforça essa dimensão simbólica e emocional.

Tal como a citação de Sylvia Plath que abre a obra — “escrevo apenas porque há uma voz dentro de mim que não se cala” —, também em Amarga Mente encontramos uma voz inquieta, sincera e profundamente humana, que se afirma através da poesia.

Uma leitura marcante, que evidencia a força da palavra como espaço de liberdade, introspeção e verdade.

Disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

Leia, porque ler é um prazer!

sexta-feira, 11 de abril de 2025

Fundo local enriquecido: "Pó do Açor" de Tonito do Solheiro


"Pó ao Açor" é um livro da autoria de Tonito do Solheiro, pseudónimo literário de António Gouveia Coisinha.

O autor, natural da aldeia de Sobral Magro, onde passou a sua infância, cedo rumou para Lisboa. Não obstante a Serra do Açor faz parte da sua identidade, realidade que transparece nas páginas da sua obra poética.

Maria de Lourdes Martinho, autora do prefácio, diz-nos que "cada poema é um pedaço do coração do autor", sendo que "a Serra do Açor não é apenas cenário: é personagem, confidente e, acima de tudo, fonte inesgotável de inspiração".

Pó do Açor

Nascido no Solheiro, do pó do Açor,
Serra da canseira, no centro da Beira,
Sete no viveiro, último sonhador,
Com berço na leira, vista na ribeira.

O viver certeiro, fazendo de pastor,
Em cada ladeira, topada ligeira,
O dia inteiro, brincando com amor,
Pico da silva, é tirado na eira.

Do Coição vezeiro, ao Covão do valor,
Com erva cidreira, a cura que cheira;
A ver do outeiro o gémeo sabor,
Enxada certeira da vida inteira.

In: Pó do Açor

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil

sábado, 15 de fevereiro de 2025

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Fundo local enriquecido: "O torno e o altar" de Luís Martins Ferreira




Em meados do século XX, em resposta ao abandono da fé cristã pelas classes trabalhadoras, alguns padres arriscaram assumir a condição operária, partilhando assim plenamente da experiência daqueles que desejavam evangelizar, fazendo-se pobres com os pobres. Luís Martins Ferreira foi um dos que, em Portugal, abraçaram esse caminho.

Nascido em 1943, em Arganil, ingressou nos Filhos da Caridade em 1971, após um período formativo em Paris, que o levou a participar nas greves e manifestações do Maio de 1968, episódio recordado num dos capítulos do livro O Torno e o Altar – Memórias de um padre-operário (Paulinas Editora), onde também evoca a novidade e a importância do movimento dos padres-operários em França.

Depois da passagem por França, Luís Martins Ferreira foi viver para a Península de Setúbal, região profundamente industrializada. Trabalho como fresador e torneiro mecânico em empresas como a Standard e a Equimetal, onde conheceu o drama dos salários em atraso e dos despedimentos.

Animado de um inabalável sentido de justiça, envolveu-se ativamente nas lutas dos trabalhadores e participou na fundação do Movimento de Esquerda Socialista (MES) (...)

O livro O Torno e o Altar é um poderoso testemunho de vida vivida de mangas arregaçadas, ao serviço daqueles que, vezes demais, a Igreja e o poder descuraram, e uma inspiração nestes tempos em que se interrogam os modelos de evangelização herdados e se busca uma nova forma de mostrar a proximidade de Jesus aos homens e mulher de hoje.

Texto adaptado a partir da badana do livro

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Fundo local enriquecido: "A minha aldeia e a Serra do Açor" de Tiló Henriques

 


No livro  “A minha aldeia e a serra do Açor: memórias e saudades”,  apresentado no passado dia 8 de setembro, na Biblioteca Alberto Martins de Carvalho, reúne um conjunto de poemas e alguns textos em prosa, organizados em 10 capítulos, a autora Tiló Henriques desenha com emoção, saudade e nostalgia os seus sentimentos, olhares, memórias e sonhos sobre a sua aldeia berço, Monte Frio, e a Serra do Açor que a abraça e envolve.

“Meu terno berço (p. 35)

Meu querido amado belo doce amigo
Ecoa uma vida a correr sem te apreciar
Em verões fugazes momentos contigo
Chegou o Outono da vida e quero-te amar
Apaixonei-me por ti e em ti me deleito
Em teus olhos verdes perco o meu olhar
Na tua lua de prata e estrelas me deito
Só tu tens a magia e arte para me acalmar
Andam em teu redor pássaros borboletas
Clamam em memórias saudades inquietas
És dos poetas sonho fonte de luz inspiração
Meu Monte Frio de sol brilhante e aragens
Monte de naturezas bucólicas e selvagens
Meu terno berço que aquece o coração…”

Tiló conduz o leitor até a um passado em que Monte Frio, tal como tantas outras aldeias que polvilham as nossas serras, era repleta de vida, levando-nos a recordar como era o dia-a-dia das pessoas que as habitavam e registando em poema este testemunho para a posteridade.

O conjunto de poemas intitulado “Mantas de fitas da aldeia” evoca este passado, para alguns já bem longínquo, com mestria. Trata-se de um testemunho vívido para o futuro, para aqueles que agora já só vêm à aldeia nos meses de verão e “apenas encontram casas habitadas de fantasmas, sombras, vazio e ausência.”

Para a Tiló a aldeia parece fundir-se com o seu próprio ser. “Esta terra que sou eu”, escreve a determinado momento, onde se sente “grata e reconciliada, de tantos grilhões, libertada, cansada, perdida, mas reencontrada, de tantas penas e cruzes carregada…” (p. 33)

Finalizo endereçando os parabéns à Tiló, por este que é já o seu quinto livro e a todos os que sentem a Serra do Açor como sendo sua recomendo que o leiam e a sintam, tal como a Tiló o faz.

Miriella de Vocht


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quinta-feira, 20 de julho de 2023

Vida e Obra de José Mattoso

José Gonçalves Mattoso nasceu a 22 de janeiro de 1933 e faleceu a 8 de julho de 2023.
Foi historiador e professor universitário. Doutorou-se na Universidade de Lovaina (Bélgica) com a tese "L'Abbaye de Pendorada des origines à 1160".

Foi professor auxiliar da Faculdade de Letras de Lisboa desde 1971 e da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. A partir de 1977 passou à categoria de professor agregado e em 1979 a professor catedrático. Dedicou-se sobretudo à história beneditina em Portugal e à história medieval.

A produção historiográfica de José Mattoso começou a ser publicada em 1968, com “Les Monastères de la Diocèse du Porto de l'an mille à 1200”, seguindo-se, em 1970, “As Famílias Condais Portucalenses séculos X e XI”, tema a que voltou, em 1981, com a obra “A Nobreza Medieval Portuguesa. A Família e o Poder”.


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quinta-feira, 6 de julho de 2023

Fundo local enriquecido: "Acrescento" de Tonito do Solheiro


"Acrescento" é o segundo livro da autoria de Tonito do Solheiro, pseudónimo literário de António Coisinha e, conforme se pode ler no prefácio é uma continuação do livro “O Berço no Éden”.

Nas palavras do autor “Acrescento” é um conjunto de poemas, que remetem para a sua segunda infância. Estes poemas constituem, nas palavras de Maria de Lourdes Martinho, um convite “a descobrir o poeta eterno apaixonado, os seus sonhos, anseios e desilusões; conhecer entre outros, familiares, amigos, o meio onde nasceu, o que o acolheu e o homem em que se tornou.”

Gentes do Açor

São escarpas selvagens, fragas e montes,
Ribeiras de cristais, tocam sinfonias,
Sol e sombras, desenham os horizontes
Do paraíso, rico em melodias.
As chuvas lavam e alimentam fontes,
Regatos correm por levadas esguias,
Levam vida às courelas dos despontes,
Pra recriação de todos os dias.

Vidas sofridas nas serras das canseiras,
Cavam nas encostas, combros de ambição,
Pão em vida, sepulturas derradeiras,
As suas riquezas, são as regas do chão.
Preces divinas, no cimo das ladeiras,
Aliviam as penas, cumprem devoção,
São assim as gentes serranas das beiras,
Tangem o fado com dotes de emoção.

                                                     In: Acrescento

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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sábado, 24 de junho de 2023

Fundo local enriquecido: "Todo este silêncio" de Paulo Ramalho


ISBN: 978-989-735-461-8
Ponta Delgada: Letras Lavadas, 2023

"Em Portela dos Ventos, vila de criadores de gado bovino perdida no interior de Portugal, tudo decorre sob o signo aparente normalidade até ao dia em que o chão se começa a abrir debaixo dos pés dos seus habitantes. Qual a razão dos estranhos buracos que engolem pedaços inteiros da povoação? E que tipo de relação pode existir entre essas misteriosas crateras e certos factos obscuros, soterrados num passado incómodo que a todos convém esquecer?

Um dos jornalistas que chegam para cobrir os acontecimentos fica alojado em casa de Guilherme Paixão. O dono do decrépito casarão recebe-o entre as citações literárias e evocações de histórias locais, passadas nos anos sessenta. Há nele uma afabilidade de eremita atormentado, que guarda ainda no peito o rasto a uma culpa antiga e precisa de um ouvinte para se confessar. E dessa ferida aberta vai extraindo um a um, para os entregar ao seu inquilino, os personagens e os factos de uma tragédia pessoal que se confunde com a história recente de Portela dos Ventos: o Padre Velho e o Padre Novo; as duas filarmónicas rivais; os grandes criadores de gado, brutais e sem escrúpulos; um veterinário ambicioso e um curandeiro com poderes mágicos; um papagaio demasiado palrador; uma mulher com um cancro no peito, tratado a pensos de carne crua; um antigo almocreve, desbocado e bêbedo, com muitas histórias para contar.

Em pano de fundo, soletrado no jornal ou comentando na penumbra da taberna, o mundo exterior a este universo rural vai seguindo a sua marcha: os Rolling Stones iniciam uma digressão pela América; Mary Quant cria a moda da minissaia; Portugal tropeça na ditadura e na guerra colonial. E no meio deste turbilhão de acontecimentos, Guilherme Paixão - então um jovem médico em início de carreira - apaixona-se pela doce e impulsiva Maria Rosa, a amante do Padre Novo.

Cinco décadas depois a vila é outra - mais industrial, mais desolada, mais triste, mas alguns dos personagens que assombram a memória de Guilherme continuam vivos, partilhando incómodos segredos e refugiando-se no silêncio quando interrogados pelo jornalista. Enquanto isso, as ruas as ruas são devoradas pelo mal sem nome e o perigo cresce a cada dia que passa. Que tipo de ameaça paira sobre esta povoação igual a tantas outras pelo mundo fora, que definham corroídas por tumores e epidemias invisíveis? Que tragédias futuras se escondem em casa cratera que as nossas civilizações vai criando? É ao jornalista que cabe reunir as pontas soltas de um novelo que parece desembocar nos erros do passado recente."

Fonte: contracapa do livro

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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sábado, 28 de janeiro de 2023

Fundo local enriquecido: "Poemas ao acaso" de Lino Salgueiro

" (...) O Salgueiro tem assim uma poesia, não apenas na forma como namora o rio, mas também no lugar que ocupa nesta pintura de uma certa ruralidade que nos recorda tempos já passados.

    Então, que melhor sobrenome Lino poderia escolher para assinar os seus poemas?

    Lino, escolhe as palavras com a sensibilidade e a ondulação do Salgueiro que ladeia as margens do rio, sem vozes bruscas ou entediantes, apenas com a suavidade com que as águas namoram tão portentosa árvore.

    E se Lino abrevia o nome de Avelino, já o Salgueiro dá-lhe as raízes no povo para quem escreve, mesmo que este, não entenda no imediato o alcance das palavras, apesar de saber que estas lhe namoram o ouvido e a mente.

    Assim, para quem desfolhar este Livro, intitulado, "Poemas ao Acaso", encontrará nele a ligação ao mais genuíno das nossas gentes, onde as coisas mais simples têm um encanto único que brota de forma sincera e simples com que Lino Salgueiro escreve. (...)

                          Excerto do prefácio pelo prof. José Dias Coimbra

Havemos de nos encontrar...

Quem me dera ser pombinha
Daquele pombal de Pombeiro...
Batia as asas, partia para longe,
Dando a volta ao mundo inteiro.
Doce torrão, donde parti de alforge,
Mala ao ombro, de outeiro em outeiro,
Pensando vencer na vida,
Ainda que num sonho derradeiro...
Minha estrela, meu norte
Qual amuleto, pedra da sorte
Moldando meu coração,
Alma penitente ajoelhada em oração.
Minha terra de invulgar grandeza,
Baluarte de pundonor,
Por onde em tempos medievos
Passou prazenteira e formosa Leonor,
Consumindo-se mais tarde
Em sonhos de realeza e de dor...
Cantos nos outeiro,
Nas levadas, nos milheirais e moinhos,
Olhos matreiros trilhando caminhos,
Bastardos, esquecidos e daninhos,
Presos na mesquinhez e na avareza.
E a história correndo presente e futuro
Com inolvidável ligeireza!
Passados os tempos de grandeza
Seguiram caminho os columbinos,
Com garbo e firmeza.
Dando a esta terra mais beleza,
Desde o monte de Quitéria
Até ao Alva profundo,
Donde das areias se tirava o ouro
Para acudir à miséria
E sonhar com o mundo...
Um mundo nem sempre perfeito.
Mas lá anda aquela saudade...
Agarradinha junto ao peito,
Enchendo-o por inteiro,
Com uma estranha certeza...
Havemos de nos encontrar em Pombeiro!

Lino Salgueiro, 13.11.2012

Nota biográfica: Lino Salgueiro é o pseudónimo literário de Avelino de Jesus Silva Pedroso. Avelino Pedroso nasceu a 15 de outubro de 1957 na aldeia de Salgueiral, na freguesia de Pombeiro da Beira. Médico de profissão, dedica-se à escrita de forma esporádica e informal desde a adolescência.

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

À venda na papelaria Argomagazine e Campanário

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terça-feira, 29 de novembro de 2022

Tempo para a poesia XCVIII

Canto da Fraga da Pena

Canta a Fraga da Pena
fonte de amor e magia
vejam bem esta bela cena
e escutem a sua melodia...

Seu namorado fugiu
no vento que se consente
nunca mais ninguém o viu
e ela chora eternamente...

E veem de todos os lados
apaixonados pretendentes
que ficam extasiados
maravilhados contentes...

Ela não vai com ninguém
apenas nas fotografias
corre por esse mundo além
em saudades e nostalgias...

Canta a Fraga da Pena
fonte de amor e magia
vejam bem esta bela cena
e escutem a melodia...

            Tiló Henriques in Sonhos e flores com asas

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Tempo para a poesia XCIV

Penumbra

Há poemas que nascem assim,
por entre o ruir das palavras,
como taças de vinho derramado
sobre a mesa dos amantes.
Há dias chuvosos, domingos cinzentos da alma
em que a tecedeira, de mãos esquecidas,
embala o tear como um berço vazio.
A vida nesses dias sabe a um barco
que não partiu, é um sonho que se não sonhou.
Há poemas assim, onde as coisas
apodrecem silenciosamente
e o universo anoitece atrás de uma janela fechada.

                                                Paulo Ramalho in  Ofício Imperfeito

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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quinta-feira, 21 de julho de 2022

Fundo local enriquecido: "O berço no Éden" de Tonito do Solheiro


"O Berço no Éden" é um livro da autoria de Tonito do Solheiro, pseudónimo literário de António Gouveia Coisinha.

O autor, natural da aldeia de Sobral Magro, onde passou a sua infância, cedo rumou para Lisboa. Não obstante a Serra do Açor faz parte da sua identidade, realidade que transparece nas páginas do livro de poesia "O Berço no Éden". 

"A atração pelo ambiente natural da Serra do Açor é, ainda hoje, predominante na sensibilidade do Tonito do Solheiro, numa quase dependência do usufruto dos carreiros das ladeiras, do curso do cristalino nas ribeiras ou, simplesmente, a contemplação do horizonte nos cumes da montanha, porque isso é a sua génese. Os sabores, os aromas, as brisas, as texturas e o relevo da paisagem, são o seu património." (excerto da introdução)
O meu sentir
(em memória da mãe)

Um pequeno gesto criativo
com a esperança recebida,
Que me faz o sentimento vivo,
De inconformismo nesta vida.

Se a matéria se vicia,
Então, que a alma se levante,
Se o espírito se corrompia,
Renove-se o gesto vibrante.

Se ambos estão do mal cativos,
Aumentem-se os tons assertivos,
Mobilizem-se repudiantes.

Façamos das vontades ativos,
Removam-se os impeditivos
E prossiga-se no adiantes.

In: O berço no Éden

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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quinta-feira, 23 de junho de 2022

Fundo local enriquecido: "A minha odisseia" de Jaime Lopes

Amadora: ed. autor, 2021
"Esta odisseia de um homem comum deixa perceber o conceito de liberdade que o EU transporta dentro da sua caixa de emoções. Desde cedo, o poeta preconizou que o oceano seria ao sua morada (...) Aqui não há proposição nem invocação, mas há uma vontade férrea de dizer que se quer perpetuar o MAR, sacralizando as águas e as consequentes memórias. (...)" (excerto do prefácio por Luísa Ramos)
A minha odisseia é o mais recente livro de poesia de Jaime Lopes, natural da aldeia de Sobral Gordo, concelho de Arganil. O autor rumou em direção a Almada aos 12 anos e ainda antes de completar os 17 anos ingressou na Marinha de Guerra Portuguesa como grumete, tendo sido agraciado e condecorado diversas vezes ao longo da sua vida pelo seu percurso na vida militar.

Publicou o seu primeiro livro, Memórias Itinerantes, em 1996, a que se seguiram, O paladar do sonho, Barco de Memórias, Na ondulação da Maré, Memórias do futuro e Ao sabor do vento.

A poesia de Jaime Lopes reflete o seu percurso de vida sendo quer a serra, quer o mar fonte de inspiração para os seus escritos.

A descrição poética, feita ao longo das 153 páginas que compõem A minha odisseia, transporta o leitor através de uma viagem impar pelos mares, que apenas alguém que teve o mar como escola e casa é capaz de fazer.

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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segunda-feira, 18 de abril de 2022

Memórias de Pedra de Cleo Dias

Numa gaveta, as fotos antigas e textos começam a transbordar. É um baú de memórias! Olhar imagens ou escrever sobre outras épocas é reviver um pouco das emoções e sentimentos experimentados. Dificilmente uma pessoa, mesmo com a saúde física ou mental abalada, consegue ficar imune às recordações eternizadas num livro, como este. Memórias de Pedra de Cleo Dias é um exemplo perfeito de como as memórias contribuem para a construção da identidade.

A memória pode ser entendida popularmente como a capacidade que o ser humano tem de conservar e relembrar experiências e informações relacionadas ao passado, sendo estas, parte de processos de interação de cada indivíduo com o seu meio.

A partir do início do século XX o conceito de memória passou a ser definido como um fenómeno social, na medida em que as relações entre os indivíduos são estabelecidas pelas formas em que os mesmos interagem entre si, através dos aspectos socioculturais, como por exemplo, nos ambientes: familiar, profissional, político, religioso, entre outros. Tais elementos são fundamentais na construção das memórias e, consequentemente, da história destes indivíduos. Citando Jacques Le Goff (2013) “Tal como o passado não é a história, mas o seu objeto, também a memória não é a história, mas um dos seus objetos e, simultaneamente, um nível elementar de elaboração histórica.” Assim, a memória também pode ser utilizada para reconstruir os fatos históricos a partir de resignificações individuais.

Numa escrita muito própria, impregnada de sentimento e emoção, nostalgia e esperança, Maria de Lurdes Dias, relata em “Memórias de Pedra” as memórias de tudo o que viveu e sentiu na pequena aldeia de Pai das Donas, onde cresceu. Memórias que como a própria escreve “se não forem resgatadas a tempo, acabarão por se diluir no esquecimento, como tantas outras das quais já não resta nem um simples vislumbre.”

São mais de 400 páginas, na sua maioria escritas em prosa, em que a autora parece que vai pintando com palavras cenários e situações. Mas também há algumas incursões pela poesia, como o poema “Daqui, desta janela”.
"Debruçada no peitoril
Da janela do tempo
Observo o horizonte
Que se estende à minha frente
Fecho os olhos por instantes
E observo o eterno ontem…

Revisito-me nos lugares distantes
Que me vivem na memória
Intocáveis e serenos
Tal como os deixei
O milheiral verde

Onde tanto labutei
Até ao limite das minhas forças
Que
Por tenras serem
Eram poucas…

Das tantas sementeiras
Batatas serôdias
Feijões mochos
E dos que subiam até ao céu…

Os olivais dispersos
Onde azeitonas geladas
A doerem-me nos dedos
Os corrimões das videiras
Ao fundo das quelhadas

O quintal dos mimos
O pomar sombrio
A adega e o alambique
No culminar da vindima

A eira das malhas do trigo
As casas das debulhas do milho
À luz do candeeiro no alto da trave
Os currais
O cheiro do estrume
A fumegar….

A casa da minha avó
O bordo da fogueira

Onde me sentava e me aquecia
Enquanto comia o caldo das couves
E ouvia histórias antigas
De homens e lobos
Na lonjura dos montes
Eram histórias simples
De meias verdades
De meias fantasias
Mas que tanto me encantavam
Esgravatando na memória
Encontro tantos tesouros

Está tudo lá
Inalterável
Como se o tempo não existisse…"
Quase todos os mosaicos de que se compõem este livro vêm acompanhados por uma fotografia como que a dar um enquadramento visual…

Memórias de pedra é um retrato da vida nas aldeias da Serra do Açor nas décadas de 70 e 80 do século XX. Vidas árduas em que as rotinas diárias eram ditadas pelas estações do ano e aquilo que em cada uma delas era necessário fazer para tirar da terra em socalcos e quelhadas o sustento para o dia-a-dia.

Mas não apenas as questões agrícolas são referidas neste belo mosaico da vida rural do século passado. Através dos relatos de Cleo Dias revivemos a matança do porco, o largo da aldeia como ponto de encontro, as vindimas, as festas, o cozer da broa, e outros tantos costumes que por força do êxodo rural e da modernização se foram perdendo no tempo.
“O tempo… sempre o mesmo tempo de que nos damos conta de já ter passado, quando nos olhamos ao espelho e lhe descobrimos o diâmetro da espessura. Ou nas rugas que escavaram socalcos na pele do rosto engelhado de uma velha, a debulhar memórias que estende ao sol… O tempo que nos escapa por entre os dedos, porque nos distancia das coisas. Não dos lugares, porque a esses podemos voltar sempre que nos apetecer. Apenas das coisas, porque os lugares, esses, a continuarem lá ainda que mergulhados na imperturbável quietude dos montes. Os mesmos lugares que fervilhavam de vida, porque pessoas mais novas do que nós agora e no entanto mais velhas do que nós a mexerem-se com ferramentas nas mãos e cestos e molhos às costas, frenéticos, e a tagarelarem alegrias e tristezas umas com as outras em lugares que se lá formos hoje, as não encontramos. De maneira que, só o vazio no lugar delas. Mas se ainda nos lembrarmos delas, podemos coloca-las nos seus lugares, e tudo outra vez como dantes! Tudo isto são coisas insignificantes… Talvez saudades. Sim, são saudades do que o tempo abocanhou e deixou para trás."
Memórias de Pedra é certamente um livro que merece a pena ser lido e constitui um importante contributo para a preservação da memória imaterial de todos os povos que habitaram e habitam a Serra do Açor.

Miriella de Vocht
Texto de apresentação do livro "Memórias de Pedra" na 27ª Feira do Livro de Arganil

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Fundo local enriquecido: "Utopia Mirandum" de Rui Cruz

Arganil: ed. autor, 2021
ISBN 978-989-33-2041-9
Através do livro "Utopia Mirandum" Rui Cruz tenta destruir narrativas vigentes, numa época de crise, propondo ao leitor uma nova narrativa. (Luís Novais)

Numa sala de um tribunal, 3 desconhecidos, por razões quase ridículas, travam um conhecimento pessoas, que em breve se transformou em amizade e cumplicidade, a tal ponto que tomaram a iniciativa de mudarem radicalmente as suas vidas, partindo para uma epopeia que os levou ao acaso histórico de fundarem um país diferente, ousado, polémico e certamente estranho.

Este texto narra, na primeira parte, as aventuras que se viveram até ao nascimento da nação e depois, nas partes seguintes, aproveita os incidentes e picardias que se seguiram e que condicionaram a forma como se organiza a vida e a sociedade nessa terra, fazendo uma breve visita às suas instituições e aos conceitos determinantes, sendo certo que trata de uma forma simples de temas bastante controversos e eventualmente potenciadores de muita polémica.

Mais que uma história por vezes bem-humorada, por vezes muito sarcástica, por vezes demolidora, trata-se de um documento em que se lançam as bases daquilo que justamente se pode chamar uma nova utopia, a que o autor chama a UTOPIA MIRANDUM.

Fonte: contracapa do livro

Livro disponível para empréstimo na Rede de Bibliotecas do Concelho de Arganil.

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Tempo para a poesia LXXXIX

Na solidão

Pedi ás selvas um consôlo amigo,
e um dôce abrigo quiz achar então,
abrindo ás auras o sacrário da alma,
aonde a calma êu procurava em vão.

E mêsmo lá, n'um delirar de louco,
vi que era pouco algum prazêr, que tive!
É que, inda à sombra de florífera râma,
longe do que âma, o coração não vive.

Tudo nos bosques era gala e festa!
tôda a floresta pâra mim sorria!
Sentei-me... ergui-me... dôidejei... ás flôres
contei amôres, que ninguem sabia.

Por entre as matas de um odôr selvagem,
corria aragem, não faltava luz!
o sol gravava, em sêu formôso manto,
o mago encanto, que a solidão produz!

Mâs... ai! fui triste! Olhei ao longe e ao perto,
e o olhar incerto não te viu, amôr...
a ti, ó ente, que a minha alma entendes,
e que me prendes, com estrânho ardôr.

Êu quiz mirar-te n'um gentil regato,
que d'entre o amto se escoava a mêdo,
parei... fugiste, celestial miragem,
bem como a aragem, por entre o arvorêdo

Quiz a cabêça recostar-te ao braço,
no têu regaçõ delirar... cair...
sentir o arfar do têu virgínio sêio,
e em dôce enlêio a tua fala ouvir.

- Engâno! engâno! - dizia êu tremênte!
- Engâno! - a mente me bradava ainda!
Fôi-se o desêjo... tudo lá faltava...
só me restava uma suade infinda.

E essa saudade, que êu então sentia,
e essa gonia, que êu então sofri,
estão na FLÔR - que te mandei -, objecto
que diz o afecto, que me prendi a ti.

Maio - 1872

Sanches de Frias in Horas perdidas
(livro disponível para consulta na Biblioteca Municipal de Arganil)