quinta-feira, 17 de março de 2016

Anunciando a chegada da Primavera com poesia (IV)

(Lisboa: Editora LG, 1998)

Primavera

Olha o Sol que meigo está!
E como beija as olaias
Quem parecem tuas aias,
Esperando que saias de casa!...

Aquece; mas não abrasa…
E faz sair dos abrigos
Aves e insectos. E os trigos
Como são verdes e riem!

A serra até se espreguiça;
E abre os braços ao sol!
- Tocaram sinos à missa –
Mas o céu é manso e mole;
Pra que os pastores assobiem
E se oiçam na distância…

… Olho teu rosto; a infância
Dos teus olhos me sorri
E a tua boca seduz…

Primavera!
Primavera!...

Como nos beija esta Luz!

                                             Francisco Bugalho in Poesia

quarta-feira, 16 de março de 2016

Anunciando a chegada da Primavera com poesia (III)

Ode Primavera

Em Março surge a leda madrugada
do advento solar da Primavera,
bênção do Sol à Terra despertada
depois do frio Inverno que lhe dera

Bênção do Sol à Terra Mãe vestida
de múltiplos floridos e verdura,
noiva eterna no altar da vida
num amoroso ciclo que perdura

Beijos de luz o Sol à Terra envia
através dos seus raios fecundantes,
que transformam a térrea face fria
em pomar de promessas deslumbrantes!

Oh luzes da manhã abençoada
P’la Primavera que nos dá esp’rança,
uma esp’rança bela, renovada,
que nos envolve o riso de criança
e nos perfuma a alma serenada,
quer tenhamos ou não a confiança!

Como a noite que volve madrugada,
de nós morremos
e renascemos
em cada despontar da alvorada
e novo sonho,
belo, risonho,
nos devolve a esp’rança foragida,
que por encanto,
num meigo canto,
nos reanima a alma para a vida!

Só o corpo, que morre, envelhece
e nos adunca,
mas não, ou nunca,
a nossa alma quando se engrandece
com infinito
Amor convicto!

Oh luzes da manhã abençoada
p’la Primavera que nos dá esp’rança,
uma esp’rança bela, renovada,
que nos devolve o riso de criança
e nos perfuma a alma serenada,
quer tenhamos ou não a confiança!

Vieira de Barros in Este Sol que nos aquece

terça-feira, 15 de março de 2016

Anunciando a chegada da Primavera com poesia (II)

Equinócio da Primavera

Da noite a aragem, tépida refrescando vem
surpreender as luzes, que interiores, se apagam
lentamente, uma após outra, como em madrugada
ao longe as luzes de outra margem – rio
descido pelas águas tenuemente crespas,
sombras passando, e escorre matutina,
ainda sem brilho, a vibração das águas,
enquanto rósea apenas de uma aurora ausente
a crista das montanhas reverdece.

Por sobre a plácida e pensante aragem física
das violações diurnas, de amarguras,
vilezas vistas e traições sonhadas,
notícias de jornal e desafios,
guerra eminente ou, mais que dolorosa,
cravada nas imagens de uma paz sombria,
perpassa a noite véus de primavera,
glicínias que amanhã estarão floridas,
e folhas verdes, muito frágeis, tenras,
e o azular-se o mar, o distanciar-se o céu
na crua luz que juvenis sorrisos,
traços ligeiros de alegria funda,
devora lentamente, e as rugas ficam..
– ao longe as luzes de outra margem, rio
onde a noite se esconde até à morte.

Jorge de Sena in Poesia - I

segunda-feira, 14 de março de 2016

Anunciando a chegada da Primavera com poesia (I)


Soneto da Primavera

Nos bosques, nas florestas, na devesa
A Primavera esbanja a luz gloriosa,
Que cintila por toda a Natureza
E a alaga em ondas de maré radiosa.

Rejubilam as águas da repesa,
Em amena cantiga descuidosa,
E os jardins engrinaldam-se em beleza,
Numa ressurreição maravilhosa.

Exultação do Sol omnipotente
E criador do verme e da semente,
Espírito imortal do verbo ser.

E dos astros à mais rasteira planta,
Tudo num esto de alegria canta,
Numa ansiedade imensa de viver.

Afonso de Castro in Antologia Poética

quinta-feira, 10 de março de 2016

Sugestão de leitura: A casa do pó de Fernando Campos

Um homem que desconhece a sua ascendência e origem. Só um medalhão que traz ao peito desde sempre o pode levar a descobrir quem é. Um enigma humano e verdadeiro passado em Portugal no século XVI.

Romance histórico nas rigorosas reconstituições factuais e locais, no recorte de muitas das figuras que atravessam a cena; ficção na intriga e no delineamento de personagens inteiramente criadas ou apenas recriadas, A Casa do Pó tem como pano de fundo um drama ocorrido em Portugal no séc. XVI protagonizado por membros da mais alta nobreza das cortes de D. Manuel I e D. João III.

Drama envolto em mistério, teve o condão de apaixonar a opinião pública da época e de inflamar a pena de escritores coevos ou posteriores. A Casa do Pó lança sobre os factos uma curiosa hipótese que, não podendo ser mais do que isso à míngua de documentos, é verosímil, hábil e logicamente tecida.

A acção estende-se por Portugal, Espanha e toda a bacia mediterrânica dominada por Venezianos e Turcos, até à Palestina e nela se sucedem episódios cheios de lirismo, de crueldade e de aventura.

Um humor delicado e uma boa dose de «suspense» à maneira dos bons policiais são outras marcas do texto. Mas o autor, ele mesmo o escreve em nota final, não pretendeu apenas fazer uma mera «incursão pelo chamado romance histórico. O que aí está são velhos problemas da humanidade que, vindos de há séculos, ainda hoje persistem nos mesmos cenários e saltam para outros mais alargados e vastos.»

Fonte: Badana do livro


Uma sugestão de leitura dos:

O AUTOR: Fernando Campos nasceu em 1924, em Águas Santas, concelho da Maia, nos arredores do Porto. Estudou em Coimbra onde se licenciou em Filologia Clássica e foi professor no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. Para além de algumas obras didácticas e pequenas monografias de investigação etimológica e literária, é autor do romance histórico "A Casa do Pó", a sua primeira obra de fôlego a ser publicada e que o colocou entre os grandes escritores portugueses, a que se seguiram "Psiché", "O Homem da Máquina de Escrever","O pesadelo de Deus", "A Esmeralda Partida" (Prémio Eça de Queirós - 1995), "A Sala das Perguntas", "Viagem ao Ponto de Fuga", a "Ponte dos Suspiros" e "…que o meu pé prende…".
Algumas das suas obras estão traduzidas em França, Alemanha e Itália.


Leia, porque ler é um prazer!

terça-feira, 8 de março de 2016

Livro do mês: Um longo regresso a casa de Gail Caldwell

«Esta é uma velha história: eu tinha uma amiga com quem partilhava tudo, até que ela morreu e também isso nós partilhámos. Um ano depois de ela ter partido, quando eu julgava já ter ultrapassado a loucura daquele sofrimento inicial, caminhava no parque de Cambridge onde durante anos Caroline e eu passeámos os cães. Era uma tarde de inverno e o local estava vazio - a estrada fazia uma curva, não havia ninguém à minha frente nem atrás de mim e eu senti uma desolação tão grande que, por momentos, os meus joelhos ficaram imóveis. "O que estou aqui a fazer?", perguntei-lhe em voz alta, habituada agora a conversar com uma melhor amiga morta. "Devo seguir em frente?"»

Um longo regresso a casa, escrito em tom intimista, traz-nos uma comovente história real, vivida pela própria autora, sobre o sofrimento e a dor, e como estes podem ser ultrapassados com a força da amizade e do amor.


Livro disponível para empréstimo na Biblioteca Municipal de Arganil.

Leia, porque ler é um prazer!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Novidade na Biblioteca: A rapariga no comboio de Paula Hawkins

Todos os dias, Rachel apanha o comboio... No caminho para o trabalho, ela observa sempre as mesmas casas durante a sua viagem. Numa das casas ela observa sempre o mesmo casal, ao qual ela atribui nomes e vidas imaginárias. Aos olhos de Rachel, o casal tem uma vida perfeita, quase igual à que ela perdeu recentemente.

Até que um dia... 

Rachel assiste a algo errado com o casal... É uma imagem rápida, mas suficiente para a deixar perturbada. 

Não querendo guardar segredo do que viu, Rachel fala com a polícia. A partir daqui, ela torna-se parte integrante de uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, afetando as vidas de todos os envolvidos.

Um livro capaz de viciar!

“O truque de A Rapariga no Comboio é simples. Está bem escrito, obriga a uma velocidade de leitura para se saber o desfecho - que só se percebe à página 268 - e trata de todos os temas que interessam ao maior grupo de leitores do mundo: as mulheres. Há um crime sim, mas também existem maridos infiéis e pouco apaixonados, que são pais pouco dedicados e merecem justiça feminista urgente. Paula Hawkins embrulha tudo, com muita bebida à mistura, sexo e violência. Por isso não nega sentir-se tão atraída pelo lado negro das pessoas como o vilão Darth Vader pelo poder sideral.”

Fonte: João Céu e Silva in Diário de Notícias de 10.06.2015

deste thriller absorvente, perturbador e arrepiante!

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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Livro do mês: Rio profundo de Shusaku Endo

O presente romance, provavelmente a sua obra-prima, vem confirmar todos os argumentos que levaram a crítica internacional a considerar Shusaku Endo como um dos grandes escritores do século XX.

Tudo se passa nas margens do Ganges, o rio sagrado da índia, em torno de cinco japoneses que para aí convergem à procura de alguma coisa que perderam. Isobe, que chora a morte recente da mulher, procura um sinal da sua reencarnação. Kiguchi, um sobrevivente dos horrores da guerra na selva da Birmânia, tem esperança de poder dar descanso às almas dos camaradas mortos. Numada, que se separou dos seres que amava e sobreviveu a uma doença grave, procura conforto junto da Natureza. Mas o Ganges é também um local de reunião para Otsu, rejeitado pelos seus irmãos católicos, e Mitsuko, a mulher que o seduziu na Universidade e o tentou arrancar à sua crença.

Romancista católico, Endo escolheu deliberadamente os lugares sagrados de uma outra religião para melhor transmitir, neste romance profundo e comovente, aquela que foi a sua derradeira mensagem: a de um Deus que aceita todos aqueles que sofreram.

Fonte: contracapa do livro

Nota biográfica:

Apontado como um dos mais refinados escritores do século XX, Shusaku Endo (1923- 1996) escreveu a partir da perspectiva fora do comum de ser japonês e católico. 

Nascido em Tóquio, Endo foi baptizado aos 12 anos, numa altura em que os cristãos representavam menos de 1% da população japonesa. 

Formou-se em Literatura Francesa, pela Universidade de Keio, e estudou durante algum tempo em Lyon como Bolseiro do Governo japonês. 

O seu estilo de escrita tem sido sucessivamente comparado ao de Graham Greene, que aliás o considerava um dos maiores escritores do século XX. 

De entre as suas obras mais representativas, além de Silêncio, destacam-se também O Samurai e Rio Profundo. Shusaku Endo foi galardoado com os mais importantes prémios literários do seu país, e por diversas vezes nomeado para o Prémio Nobel de Literatura.

Aceda ao catálogo da Rede de Bibliotecas de Arganil, para saber que outras obras do autor temos disponíveis para si.

Leia, porque ler é um prazer!