quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O seminarista

Quando o assassino profissional, conhecido pela alcunha de o Especialista, pensa reformar-se, verifica que a sua vida está demasiado envolvida nos casos que foi “despachando” ao longo dos anos. Recordando os “trabalhos” mais complexos ele conclui que o que fez não o afectou, foi apenas trabalho, não lhe deu qualquer prazer. O prazer está nos livros que lê, nos filmes, e nas mulheres que vai conquistando ao longo da vida.

“O seminarista” é um policial com um toque de barbárie que o torna forte. A violência, o erotismo, mas também a irreverência fazem da escrita de Rubem da Fonseca um caso muito interessante da literatura em língua portuguesa.

Nascido no Brasil em 1925 fez um percurso de vida repleto de experiências percorrendo várias profissões até se licenciar em Direito e se tornar Professor. A grande paixão pela leitura que o acompanha desde criança deu-lhe, certamente, o lastro para a escrita que, no entanto, só lhe é reconhecida já perto dos 40 anos de idade. Rubem da Fonseca é hoje considerado um dos maiores contistas brasileiros com treze colectâneas de contos, onze romances e muitas crónicas.

Um livro que nos prende do principio ao fim e que pode requisitar na Biblioteca Municipal de Arganil.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Compreensão leitora

Estão disponíveis on-line, desde Dezembro de 2010, no site da Universidade do Minho dois interessantes estudos que têm como objectivo promover a leitura e a literacia através do desenvolvimento da compreensão leitora.

“O ensino da compreensão leitora: da teoria à prática pedagógica” é um Programa de Intervenção para o 1.º Ciclo do Ensino Básico da autoria de Fernanda Leopoldina Viana, Iolanda da Silva Ribeiro, Ilda Fernandes, Albertina Ferreira, Catarina Leitão, Susana Gomes, Soraia Mendonça e Lúcia Pereira.
De acordo com Alina Galvão Spinillo, autora do prefácio, “este livro não é um manual de procedimentos a serem seguidos ou um roteiro de actividades a serem mecanicamente aplicadas em sala de aula. Pelo contrário, esta obra pressupõe um professor activo que é sistematicamente requisitado a entender o que faz e a mediar as interacções entre os alunos e as actividades propostas. Pressupõe, também, um aluno intelectualmente desafiado a compreender textos cada vez melhor.” E conclui que esta obra “ensina professores a ensinar seus alunos a compreender textos. Ao aprender a compreender, os alunos, por sua vez, serão capazes de compreender para aprender, no sentido de entenderem os conteúdos das mais diversas áreas do conhecimento; pois, como dito pelas autoras: aprender a compreender torna mais fácil o saber.”

“Compreensão da Leitura. Dos modelos teóricos ao ensino explícito” é um Programa de Intervenção para o 2.º Ciclo do Ensino Básico da autoria de Iolanda da Silva Ribeiro, Fernanda Leopoldina Viana, Irene Cadime, Ilda Fernandes, Albertina Ferreira, Catarina Leitão, Susana Gomes, Soraia Mendonça e Lúcia Pereira. A obra parte do pressuposto que a leitura se baseia em dois pressupostos: o processo de descodificação e o processo de compreensão. Pode ler-se no prefácio da autoria de Leonor de Queiroz e Lencastre que “A forma como o programa concebe as estratégias de promoção da compreensão faz da leitura um processo de descoberta e resolução de problemas, que, por sua vez, evidencia o carácter de prazer a que o acto da leitura deve estar associado”

Estes estudos resultam de um projecto de investigação-acção associada ao projecto Litteratus, cujo objectivo é promover a leitura e a literacia.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

BEM-ME-QUEREM

Bem querem a Maria Leonarda Tavares, a Diana, a Azinheira e o Carriço, O Fred Catabugalhos, o Bobi e a Felicidade, a Mariazita e os muitos outros personagens que tecem e enredam o universo narrativo de Bem-me-querem. Bem lhe querem também os leitores, por mais esta obra com que a autora acaba de os presentear, com eles partilhando os valores e os encantos que a comprometem e movem, na vida e nas causas sociais que abraça.

Bem-me-querem é um conjunto de histórias de generosidade e afecto, no relacionamento de pessoas e animais, animais entre si e com outros elementos da natureza. Maioritariamente, são histórias reais que a autora recorda e recria, ficcionando-as e conferindo-lhes a magia da personalidade escrita. Os protagonistas são bichos, mas são também pessoas e, sobretudo, a autora, cuja emoção e poder comunicativo nos permitem visualizar situações, (re)visitar tempos e lugares, viver amores e amizades possíveis e aparentemente impossíveis, chorar e conter as lágrimas, acalentar o sonho de continuar a sonhar … Lendo-a, celebramos, com S. Francisco de Assis e tantos outros pensadores, a irmandade, a igualdade e a interdependência de todos os seres vivos, cada um existindo e valendo por si próprio, independentemente do valor e da utilidade que o homem lhe atribui.

Misto de crónica e fábula, Bem-me-querem são histórias que a memória e o passado alicerçam para afirmar e questionar o presente: “Todos os que amei estão vivos porque os guardo na memória” (P. 86). “Terei alguém na velhice que me queira tanto? A quantos de nós humanos o destino consente uma velhice tão estimada e tão digna como a tua?” (P.93). Histórias alicerçadas na memória também para prenunciar o futuro, e o obrigar a cumprir-se favoravelmente, pelas lições de vida e solidariedade que comportam. Dizia alguém que a grandiosidade de uma nação e o seu progresso moral se podem medir pelo modo como trata os animais. Já agora, também os idosos e as crianças.

Ao ler o livro de Maria Leonarda Tavares, lembrei-me, entre outros, de obras e autores como A minha Família e outros Animais, de Gerard Durrell, Bichos, de Miguel Torga, Cão como nós, de Manuel Alegre, História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar, de Luis de Sepúlveda, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado, Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro … Grande plêiade! Embora diferentes quanto ao estilo e ao contexto em que se desenrolam, são obras que vêem e admiram a diversidade dos seres vivos, irmanando-os, na singularidade de cada um, pela nobreza das qualidades com que agem ou pela falta dela.

Encantada e seduzida, gostei muito de ler Bem-me-querem, inclusive porque encontrei no livro muitos dos ingredientes que fazem a essência humana: a inteligência e a magnanimidade de espírito, a compaixão, a felicidade, o amor, a ternura, o encantamento, a ingenuidade, a pureza, a solidariedade, o respeito pelas diferenças e pela diversidade … Deixe-se encantar e seduzir você também! O livro encontra-se disponível na Biblioteca Municipal Miguel Torga (Av. das Forças Armadas. 3300-011, Arganil), podendo ainda ser encomendado através dos telefones 235202462 966581635.

Tomando de empréstimo a metáfora com que a autora se despede do esquilo, “Sinto-me maravilhada por nos termos encontrado na vastidão do mundo” (P. 74).

Lisete de Matos

Açor, Colmeal, 14 de Dezembro de 2010.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Dia Mundial da Paz

O Dia Mundial da Paz foi criado pelo Papa Paulo VI em 8 de Dezembro de 1967 e celebrado pela primeira vez em 1 de Janeiro de 1968.

A celebração deste dia leva-nos a reflectir sobre o mundo, a natureza e o uso que o homem faz dos recursos que lhe são dados no ambiente natural que o rodeia. Sabemos que o homem é um ser preparado para a sobrevivência, que perante a adversidade reage, instintivamente, protegendo-se. É impressionante a capacidade de resistência de recém nascidos abandonados, como por vezes ouvimos noticiar. Mas será o homem capaz de resistir sem a almofada da natureza? Em que se transformará se conseguir sobreviver?

Apesar de muito se falar na protecção da natureza a verdade é que as sociedades actuais, mais do que em qualquer tempo histórico, são muito agressivas com o meio ambiente. O actual modelo de desenvolvimento baseado no conforto e na abundância é pouco respeitador dos princípios que deveriam proteger o mundo natural. A actividade económica perseguindo o lucro e a criação de riqueza esquece os princípios básicos da sobrevivência do mundo natural agredindo continuamente o ambiente.

A pergunta que se impõe é: que mundo queremos deixar para as gerações que nos vão suceder? Que mundo vamos deixar às gerações vindouras? Estaremos a ser solidários com esses homens e mulheres, que poderemos vir a não conhecer, mas que irão ter em si os nossos genes? Estaremos a ser solidários com eles? Até que ponto a nossa herança vai permitir que eles se desenvolvam integralmente como seres humanos e beneficiem de uma distribuição solidária de recursos que nós fomos, ou não, capazes de lhes deixar.

Esta solidariedade de dimensão mundial baseada nos critérios de Justiça e do Bem Comum estarão dependentes de novas atitudes e de um novo estilo de vida, em que a busca do Bom e do Belo e a Comunhão entre todas as Pessoas devem determinar as opções de consumo, de poupança e de investimento e os jovens devem ser ajudados em família e na sociedade em que se integram a respeitarem-se a si próprios porque, respeitando-se a si próprios estão preparados para respeitar os outros, a respeitar a natureza e a serem mais Felizes porque a Beleza e a Harmonia da Natureza transmitem Paz e Tranquilidade.

O poder humano e a técnica quando tidos como absolutos são um grave atentado à natureza, mas também à própria dignidade humana. É importante proteger o ambiente natural para construir um mundo de Paz.

Margarida Fróis

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A sétima porta de Richard Zimler


Sophie Riedesel encontra-se em plena adolescência quando na Alemanha se assiste à ascensão de Hitler ao poder.

Jovem, espirituosa e ousada, Sophie relaciona-se com um grupo clandestino de activistas judeus e antigos artistas de circo, que se auto domina de “O Círculo”, e com eles enceta uma luta contra as políticas anti-semitas.

De um dia para outro Sophie assiste à radical divisão da sociedade (os judeus e os arianos são espécies separadas) e sente em risco a sua própria identidade. A orientação política dos pais, anteriormente comunistas, face aos acontecimentos no país sofre também uma alteração brusca de direcção, fazendo com que Sophie em casa seja obrigada a usar uma máscara.

Com o passar dos anos, Sophie vê o seu grupo de amigos a desmembrar-se e é inclusive confrontada com a morte do irmão, atingido pela guerra que os nazis moveram contra os deficientes.

Sophie ao mesmo tempo que namora com Tónio, um jovem nazi, enceta uma relação amorosa com Isaac Zarco, libanês descendente de Berequias Zarco, determinado em descobrir o que revelavam os manuscritos deste último, descobertos numa cave em Istambul no século XVI.

Esta é uma história emocionante que através do percurso de vida dos seus personagens mostra de forma clara o impacto que o nazismo teve na vida das pessoas. Muitas delas seguiram cegamente por medo ou facilitismo as políticas de Hitler, e um punhado delas resistiu, tentando a todo o custo travar a batalha contra as medidas anti-semitas.

Um livro que sem dúvida merece a pena ser lido. Para além de proporcionar agradáveis horas de leitura, dá-nos uma visão clara deste período da história.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Millennium de Stieg Larsson

LARSSON, Stieg - Millennium. Alfragide : Oceanos, 2010. 3 vol.. ISBN 978-989-23-0237-9 (1º vol.) . ISBN 978-989-23-0345-1 (2º vol.) . ISBN 978-989-23-0533-2 (3º vol.)

Os títulos que compõem a trilogia Millenium poderão ser considerados bastante estranhos: Os homens que odeiam as mulheres- 01; A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo - 02 e A rainha no palácio do gelo - 03 podem, eventualmente dar uma ideia distorcida desta obra. Na verdade a trilogia Millennium é um policial que nos agarra do princípio ao fim.

Muito bem escrito, o autor cria um enredo em que questões sociais, os média e a política se misturam de forma explosiva e nos levam a pensar em que mundo é que vivemos e de que modo as novas tecnologias podem controlam o mundo. Construir e destruir pessoas, governos, países.

Os “hacker” existirão mesmo? O que é seguro, quando colocamos informação na Internet? Como nos expomos ao aceder a este mundo tecnológico? No meio de toda a acção está o jornalismo de investigação, as formas como utilizam as suas fontes, a fiabilidade dessas fontes e as consequências do bom e do mau trabalho dos jornalista e também o seu poder que pode levar à construção ou destruição da imagem dos visados.

Uma obra a não perder e que pode requisitar na Biblioteca Municipal de Arganil


Stieg Larsson (1954-2004) foi jornalista e editor da revista Expo. Foi um dos maiores peritos mundiais no estudo dos movimentos antidemocraticos de extrema –direita nazis. Morreu subitamente pouco tempo depois de entregar à editora sueca os três volumes de Trilogia Millenium. Tragicamente, não viveu para assistir ao fenómeno mundial em que a sua obra se tornou. (informação retirada da obra)

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Nobel da Literatura 2010



Mário Vargas Llosa

Nasceu a 28 de Março de 1936, em Arequipa, no Peru tendo-se naturalizado espanhol em 1993. Ao longo da sua vida tem exercido actividades como jornalista e político, mas é como romancista, dramaturgo e ensaísta que Vargas Llosa alcançou renome internacional.
Considerado um dos maiores nomes da literatura em língua espanhola, Mário Vargas Llosa já escreveu mais de 30 romances, peças de teatro e ensaios.

Ao longo da sua carreira, Mario Vargas Llosa tem recebido inúmeros prémios e condecorações, de que destacamos: Prémio Biblioteca Breve, que lhe foi atribuído pelo romance “Batismo de Fogo”, em 1963 e que marca o início da sua brilhante carreira literária internacional; Prémio Rómulo Gallegos (1967) e Prémio Cervantes (1994), para além do Prémio Nacional de Novela do Peru em 1967, pelo seu romance “A Casa Verde”; Prémio Príncipe das Astúrias de Letras Espanha (1986) e Prémio da Paz de Autores da Alemanha, concedido na Feira do Livro de Frankfurt (1997). Em 1993 foi-lhe concedido o Prémio Planeta pelo seu romance “Lituma nos Andes”.

É membro da Academia Peruana de Línguas desde 1977, e da Real Academia Espanhola desde 1994. De entre os muitos doutoramentos honoris causa atribuídos pelas Universidades da Europa, América e Ásia importa referir os concedidos pelas: Universidades de Yale (1994), Universidade de Israel (1998), Harvard (1999), Universidade de Lima (2001), Oxford (2003), Universidade Europeia de Madrid (2005) e Sorbonne Paris (2005).
Em 1985 foi condecorado pelo Governo Francês com a Medalha de honra.

Este ano foi agraciado com o Nobel da Literatura, prémio que lhe foi atribuído pela “cartografia de estruturas de poder e pelas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual” presentes nos seus livros.

A Biblioteca Municipal de Arganil orgulha-se de ter no seu fundo documental algumas das obras deste autor, como:

- Conversa na catedral. 1ª ed. Dom Quixote, 1993. 461, [1] p.
- A tia Julia e o escrevedor. 1ª ed. Dom Quixote, 1988. 340 p.
- Quem matou Palomino Molero?. 1ª ed. Dom Quixote, 1988. 182 p.
- Pantaleão e as visitadoras. Europa-América, 1975. 224, [3] p.
- O falador. 1ª ed. Dom Quixote, 1989. 188 p.
- A cidade e os cães. Europa-América, D.L.1988. 301 p.
- A guerra do fim do mundo. Bertrand, imp. 1984. 647 p.
- Os Cachorros ; Os Chefes. Bertrand, imp. 1976. 158, [6] p.
- Os cadernos de Dom Rigoberto. (Sic) idea y creación, 2009. 259 p.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Até onde se pode ir?

Até onde se pode ir/ David Lodge
Porto: Asa, 2006

David Lodge, escritor britânico, é considerado como um dos mais relevantes autores da moderna literatura inglesa. Autor de uma vasta obra, é conhecido pelo seu tom simultaneamente crítico e humorístico, de forma sagaz usa a sátira para analisar aspectos relevantes da vida.

“Até onde se pode ir” é um bom exemplo disso. É um romance em que o narrador nos dá a conhecer o percurso de um grupo de amigos desde os tempos da universidade até ao casamento e a meia-idade, e analisa o impacto que a doutrina católica teve na vida de cada um. São 9 estudantes que seguindo os ensinamentos da Igreja levam uma vida quase monástica, não por se reverem exactamente nessa forma de estar, mas sim com medo do pecado e das suas consequências.

A narrativa inicia-se na década de 50, altura em que a igreja condenava fortemente qualquer tipo de contracepção e apenas o método das temperaturas era tolerado. Na prática este método revelava-se complicado e era pouco eficaz. Os casais ou se sujeitavam a ter filhos não desejados/ planeados ou podiam optar por não respeitar os ensinamentos da igreja. Este dilema é o tema central do livro.

Na década de 60 e 70 as mentalidades tornam-se muito mais abertas, dá-se a invenção da pílula, e começa a ser cada vez mais visível o confronto entre uma sociedade cada vez mais permissiva e a tradicionalista Igreja Católica. Inicia-se nesta época para cada um dos outrora virtuosos jovens um jogo de desafios morais em que frequentemente surge a questão “Até onde se pode ir?”

Dennis, Michael, Ruth, Miles, e os restantes personagens que dão corpo a este romance, cada um à sua maneira vão encontrando ao longo do seu percurso a melhor forma de conseguirem estar em paz com as suas consciências.

Embora a temática possa já ser pouco actual, este é um livro que resume com perspicácia um grande dilema moral.

“Muitas coisas mudaram – as atitudes em relação à autoridade, ao sexo, ao culto, aos outros cristãos, a outras religiões. Mas talvez a mudança fundamental seja aquela de que a maioria dos católicos nem tem consciência. É o desvanecer da metafísica católica tradicional – essa síntese maravilhosamente complexa e inventiva da teologia, cosmologia e casuística, que situava as almas individuais numa espécie de Snakes and Ladders espiritual, as motivava com doses iguais de esperança e medo e lhes prometia, caso perseverassem no jogo, a recompensa eterna.”

Leia porque ler é um prazer!
Quem gosta de ler encontra sempre um tempinho para o fazer